Faço parte daquele conjunto de pessoas nascidas no Paraná que se espalhou pelo Brasil. A fortuna, como diria Maquiavel, conduziu-me ao interior de São Paulo, onde exerço minha profissão. A caminho do trabalho e no trabalho, vez ou outra, tenho o privilégio de assistir ao treinamento de pilotos militares, oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB), em aviões de combate. São caças A-29 Super Tucano, made in Brazil pela Embraer.

Com sorte, é possível ver aeronaves em voo, a poucos metros de distância umas das outras. Algumas na posição normal que se espera e outras, acima delas, de cabeça para baixo, no chamado voo de dorso. São aviões do Esquadrão de Demonstração Aérea (EDA) em acrobacias variadas que surpreendem, vão da admiração à perplexidade. O EDA fica em Pirassununga, a 200km da capital e é mais conhecido como Esquadrilha da Fumaça.

As manobras revelam grau elevado de habilidade e muitas horas de treinos exaustivos. São prova de competência, dedicação, coragem e criatividade. Dão uma mostra da capacidade de pilotos que, no limite, são preparados para o combate e para a guerra. Infelizmente, tema este muito mais presente no noticiário do que se gostaria. Fica evidenciado também, um pouco do que a indústria brasileira é capaz de fazer, em particular a indústria aeronáutica.

A Embraer com sua cadeia de fornecedores pode ser considerada uma das joias da coroa. O pacote de pesquisa, desenvolvimento, inovação, tecnologia, exportação e outros ativos, garante a primeira classe da vitrine mundial. Aviões comerciais e jatos executivos na aviação civil e, no campo militar, a aeronave multimissão KC-390 Millennium e o A-29 voando mundo afora, além do caça Gripen com a sueca SAAB, dão orgulho ao povo brasileiro.

O tema da aviação traz à memória, com muita honra, o ilustre Alberto Santos Dumont, o Pai da Aviação. Dentre tantas referências a esse mineiro nascido na cidade que ganhou o seu nome, no dia 23 de outubro celebramos o Dia do Aviador e da FAB, em homenagem ao voo do mais pesado do que o ar. O lendário 14-Bis decolou por meios próprios e voou por minutos históricos no Campo de Bagatelle, em Paris em 1906.

Ainda nos ares de Paris, um pouco antes, em 1901, Santos Dumont deu uma volta na Torre Eiffel a bordo do seu Dirigível N6, no dia 19 de outubro. Esta data foi instituída pelo governo brasileiro, em 2010, como o Dia da Inovação. Dentre tantos brasileiros ilustres e eventos importantes em diversas áreas do conhecimento, a escolha de Santos Dumont é um reconhecimento do seu legado.

A força do nome está também em duas experiências que merecem ser (re)conhecidas no campo da ciência, da tecnologia e da inovação. Uma é o Instituto Santos Dumont (ISD), idealizado pelo renomado neurocientista Miguel Nicolelis, em Macaíba, no Rio Grande do Norte. A outra fica no Paraná. Trata-se da Incubadora Santos Dumont, localizada no Itaipu Parquetec, importante ecossistema de pesquisa e inovação tecnológica em Foz do Iguaçu.

As referências a Santos Dumont, sua devoção à aviação, invenção e inovação remetem ao Prêmio Nobel de Economia anunciado na semana passada. Os ganhadores, professores Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt foram reconhecidos, segundo o comitê, “por terem explicado o crescimento econômico impulsionado pela inovação”.

Os elementos aqui reunidos poderiam estimular pessoas, empresas e instituições a canalizar parte da sua energia para o Brasil e o Estado do Paraná se tornarem mais inovadores e voarem mais alto. Talento, competência, recursos e oportunidades não faltam.

Newton Hirata, doutor em ciência política, professor da AFA e Unifa

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