SANTO CARRAPATO - Paranaense dá passo importante em direção à cura do câncer
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) indica que em 2008 mais de 460 mil brasileiros enfrentaram a doença. No Brasil, as neoplasias só matam menos do que as doenças cardiovasculares. No mundo todo, cientistas se esforçam para chegar a um remédio ou vacina de alta eficácia contra os tumores.
Contudo, é do Instituto Butantan, na capital paulista, que vem uma boa notícia. A saliva do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense), aquele que ataca bois, cachorros, capivaras, foi capaz de reverter, completamente, em 42 dias, melanomas (câncer de pele) de camundongos. E as expectativas são boas para que a saliva do aracnídeo vire, de fato, remédio num futuro próximo. A indústria farmacêutica já manifestou interesse. Três laboratórios se uniram para produção de medicamentos que podem surgir da descoberta.
O otimismo da farmacêutica Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, 48 anos, que coordenou a pesquisa, só diminui quando se fala nos entraves burocráticos para que a pesquisa siga adiante.
Nascida no distrito de Felipe Schimidt, que pertence ao município de Canoinhas (Norte de Santa Catarina), Ana Marisa se mudou ainda menina para União da Vitória, no sul do Paraná, onde ainda moram seus pais. O sonho de criança de se formar em Farmácia e Bioquímica ela realizou na Universidade Federal do Paraná (UFPR). A pesquisadora falou à FOLHA sobre a pesquisa com os carrapatos.
Por que a senhora decidiu trabalhar com carrapatos?
A minha linha maior de pesquisa sempre foi ligada a sangue, buscando novos anticoagulantes. Eu já estava trabalhando com sanguessugas e a ideia de trabalhar com carrapato foi para estudar por qual mecanismo ele tornava o sangue anticoagulável para poder se alimentar. Queríamos ver se o componente da saliva era parecido com o que conhecíamos de sanguessuga. Porém, descobrimos mais. Percebemos que a proteína da saliva do carrapato-estrela, que é uma inibidora de coagulação, tem uma capacidade tóxica contra a célula tumoral.
É possível dizer que a saliva do carrapato-estrela seria eficiente contra outros tipos de câncer?
Cada tumor tem uma característica, uma forma de metastase, de distribuição, de reação. O melanoma é um tumor agressivo, tem uma distribuição grande na população e é pró-coagulante, o que é importante quando falamos de uma proteína que age contra a coagulação. Mas também estamos trabalhando com o tumor de pâncreas. Comparamos o melanona e o tumor de pâncreas e os resultados foram semelhantes. No entanto, o teste relativo ao pâncreas foi feito em cultura de células, in vitro; ainda não chegou aos camundongos.
Seu trabalho foi um dos destaques do 22º Congresso Internacional da Sociedade de Trombose e Hemostasia, que aconteceu em julho, nos Estados Unidos. É exagero dizer que o Brasil está na frente?
Não sei se o Brasil está na frente, mas posso dizer que a Heparina, por exemplo, é uma droga anticoagulante que é usada no mundo inteiro e muitos trabalhos foram apresentados no congresso internacional mostrando a Heparina como opção para ajudar pacientes que têm algum tipo de tumor procoagulante. Agora, uma molécula diferente, saída da natureza, que é essa, do carrapato-estrela, só nós temos.
É possível dizer que estamos diante de ''uma luz no fim do túnel'' em relação ao câncer?
Em relação à pesquisa, todos os nossos resultados são promissores e me deixaram feliz e otimista. Só perco o otimismo quando penso no que vamos fazer com esses resultados...
Por quê?
A pesquisa foi desenvolvida em uma instituição pública. Daqui para frente uma indústria farmacêutica teria que tocar os testes. Porém, temos uma série de problemas burocráticos e legais para fazer essa ligação público-privada. Para chegarmos a um medicamento, temos que levar uma indústria que tenha dinheiro a investir no projeto, mas nenhuma indústria vai querer investir se tiver dúvidas em relação à parte jurídica.
Os resultados já estão protegidos, patenteados pelo Butantan. Mas só a patente não adianta nada. É preciso desenvolvê-la. Ainda faltam algumas fases para a proteína da saliva do carrapato-estrela virar medicamento. E pode ser que em algumas dessas fases aja alguma reação que inviabilize o resultado final.


