Santa água
Fernando José Dias da Silva
E aí então eu saí em busca da modernidade. Foi bem de manhãzinha. Passei por túneis incríveis, por elevados de formas arrebatadoras, vi automóveis de mais de 80 mil dólares circulando pelas ruas. Quando cheguei de volta em casa já passava das onze horas da noite.
E eu sentia alguma coisa. Sentia o corpo pesado, parecia que o Holyfield tinha me batido (ou seria o Maguila, ou seria mesmo o Tyson?). Talvez fosse mesmo o estado de embevecimento diante da novidade. Dizem que as pessoas sofrem esse tipo de reação quando se deparam com a Revelação, quando descobrem a Verdade. É a experiência inusitada que deixa você transpassado de luz como anjo de vitral.
No dia seguinte é que eu percebi. Aquilo tudo era o prenúncio de uma gripe arrasa-quarteirão motivada pela chuva e pelo engarrafamento de mais de 200 quilômetros que parou São Paulo na última semana. Tudo bem, a gripe pode ser culpa minha que não saí agasalhado e nem com guarda-chuvas, como minha mãe tinha recomendado.
Mas ter chegado em casa quase de madrugada independe dos seus cuidados. Não tem importância. Eu vi toda a modernidade. Na verdade todo o dia eu vejo a modernidade, mas não percebo. Dessa vez não, dessa vez eu estava maduro para receber o impacto. E foi um tranco incrível descobrir que apenas um homem está promovendo a maior e mais completa tentativa de equidade social jamais tentada no Brasil.
Sim, porque nada como um engarrafamento monstro para nivelar classes sociais. O sardinha que viaja de ônibus e o doutor que guia sua BMW estão todos no mesmo barco, às vezes literalmente. Ninguém escapa de um congestionamento com chuvas. E o que me dá alegria é que esse processo está só começando porque ainda nem chegaram os grandes dilúvios de verão. Aí essa chacoalhada social vai ser radical.
Tudo isso também coloca por terra aquela frase infeliz do Pelé que dizia que o povo brasileiro não sabe votar. Ao contrário, sabe votar sim. E muito bem. Tanto que elegeu o candidato do prefeito para continuar a sua obra. Nós estamos garantidos. Teremos a mesma linha de administração por mais quatro anos seguidos. É a glória dos paulistanos, que assim dão um exemplo ao resto do País de como eles sabem decidir certo, quando querem.
O interessante também é que depois de toda essa experiência histórica, no dia seguinte parecia que não havia acontecido nada. O pessoal na avenida Paulista estava preocupado com seus panetones de Natal, com a correria das compras e com o chope que seria tomado à noite nas festas de amigo secreto. O paulistano é antes de tudo um forte, mas não demonstra, internaliza as suas vitórias. Os outros dizem que ele faz parte de um povinho fechado, mas não é verdade: o paulistano não precisa contar lorotas sobre as suas conquistas.
Enquanto isso o pessoal em Brasília fica discutindo assuntos secundários como reeleição, lista de devedores do Banco do Brasil, essas bobagens que andam sozinhas até pela dinâmica dos acontecimentos. Mas lá também aparecem exemplos de que o País não é o mesmo. Melhorou muito.
Passou meio despercebido, mas o fato é que preconceitos estão caindo, como o do lobista com mais de dez anos de atividade na Comissão de Orçamento que denunciou uma tentativa de suborno. Foi uma reação por impulso, por indignação, talvez porque tenha sido a primeira vez que tenha ouvido falar dessas práticas nefandas.
Sem contar, é claro, com a bandeira brasileira colocada no caixão daquele rapaz, Leonardo Pareja, pelo grupo Tortura Nunca Mais, de Goiás.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





