Ao informar, em Londres, que seu governo vai rever com cuidado a questão da abertura comercial brasileira, considerada por ele mais um exagero excêntrico de seu antecessor Fernando Collor de Mello, o presidente Fernando Henrique Cardoso foi meio justo e meio injusto, meio estadista e meio demagogo. Tudo depende do grau aplicado à abertura e da profundidade de sua revisão.
Ainda é politicamente incorreto saudar qualquer coisa que tenha sido produzida no governo Collor. Até porque o ex-presidente continua sem entender patavina do que ocorre em seu redor. Ele é uma espécie de autista, que não consegue se deixar penetrar pela influência e pelo exemplo, vindos de fora, só consegue expressar o que seu próprio cérebro emite, da alagoana forma pretensiosa de sempre.
A verdade é que o Brasil era um país viciado em autonomia e estava indo literalmente para o abismo por causa disso. Para proteger a indústria nacional de informática, que, na prática, nem sequer existia, uma aliança esdrúxula, estabelecida entre militares nacionalistas, empresários dito progressistas e esquerdistas de ocasião, terminou por produzir um ‘‘caso’’ raro, em que o contrabando passou a suprir o consumidor nacional, ganhando o mercado quase inteiro. O estimulo a sucata eletrônica nacional foi apenas o mais extremado exemplo de como funcionava o fechamento de aduanas à brasileira: improdutividade crônica, elevação do Custo Brasil a níveis insuportáveis e, como sempre, o coitado do consumidor pagava a conta. O país inteiro segurava a vaca das tetas de ouro para um grupinho com acesso aos círculos íntimos do poder, dos subsídios e dos incentivos fiscais mamar.
Fernando Collor de Mello foi eleito para acabar com essa farra. O povo brasileiro lhe deu esse mandato, que ele atirou pela janela por patrocinar outra orgia - a da engorda de sua corte arrogante, ambiciosa, perdulária e corrupta nos cochos do erário. Apesar dos pesares e dos custos a que todos os brasileiros foram submetidos, inclusive o confisco da poupança dos primeiros dias de seu reinado, a loucura que impulsionou Collor foi bendita pelos menos nisso: a abertura comercial aos produtos do exterior permitiu que o Brasil tivesse acesso ao planeta globalizado, em que o mundo se tem transformado celeremente nesses dias. Sem Collor, sendo Lula a alternativa para a presidência, a ilha de Vera Cruz poderia ter comprado uma passagem direta e sem volta para a África - bem longe do maravilhoso mundo novo.
Para que o Brasil rompesse com o passado autonomista, foi necessário usar uma energia enorme. Da mesma forma como tinha sido necessária uma energia imensa para romper com os guilhões do passado autoritário, na hora de redigir à Constituição, em 1988 - e Fernando Henrique sabe muito bem disso. Tanto sabe que tendo sido um de seus principais autores antes, agora está louco para mudar todo o que ele mesmo ajudou a escrever, por saber que o entusiasmo juvenil dos tempos da Constituinte poderia ser muito bom para jogar o entulho autoritário no lixo, mas foi péssimo conselheiro para produzir um texto coerente e perene, capaz de impulsionar o país para frente.
Então, inculpar Fernando Collor, já réu de tantas outras acusações, pelos excessos cometidos em nome do liberalismo comercial, equivale a atribuir a deuses perversos e insensíveis os maus resultados das colheitas. Ou, mais ainda, se assemelha a atribuir a Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e José Serra, a trindade máxima do tucanato, toda a culpa pela rigidez pétrea de uma Constituição que eles escreveram para ser cidadã, mas terminou virando madrasta para a maioria.
Daí, é possível concluir que FHC, agora na presidência, faz muito bem em rever a abertura comercial, que Collor, em boa hora (embora atrasada), iniciou e que o entusiasmo precoce de Ciro Gomes, breve ministro da Fazenda no biênio de Itamar Franco, ajudou a arreganhar, de forma um tanto quanto irresponsável. De fato é preciso ir com cuidado e estabelecer linhas de política autônoma, que o fervor xiita dos primeiros movimentos revolucionários terminou atropelando.
Ao denunciar Collor da paternidade irresponsável do monstro pintado, o presidente age como um demagogo. Será um estadista, se relegar essa demagogia apenas ao universo da saliva, mantendo na prática comercial uma abertura, digamos, prudente. Algo que não reduza a sucata o parque industrial brasileiro, mas que também não faça verter, juntamente com o suor copioso, o sangue dos mártires dos vasos do consumidor brasileiro, que sempre termina pagando as contas

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