Festival de picaretagem. Campeonato de arremesso de lama. Concurso para eleger o maior mentiroso. A política e os políticos rolam pela ladeira abaixo do descrédito com velocidade alucinante. O problema que está posto no momento é difícil, porque a saída não pode ser simples. Não pode ser do tipo esqueça-se tudo. A desmoralização já chegou a um ponto em que é preciso haver decisão. Por outro lado, a implantação do terror revolucionário pode deslegitimar o que sobrou deste terreno arrasado. Melhor seria chamar o Papa como intermediário de todos os santos que poderiam ser invocados.
Mas, por incrível que pareça, ainda existem curiosos que imaginam apenas as duas saídas: ou salvam-se todos, ou todos vão para o brejo. Só que as coisas não vão ser fáceis assim. A decisão – qualquer decisão – que for tomada será traumática, grave e desgastante pela envergadura da crise. Não dá para inocentar, suspender ou cassar envolvidos e depois ir para casa com o senso do dever cumprido, porque tudo vai continuar como está. Haverá consequências, quaisquer que sejam as medidas tomadas. Haverá sim sangue, suor e muito mais lágrimas do que as que já foram vertidas.
A hora do confronto ainda não chegou, mas está próxima. Vai se dar no momento em que alguém desse corpo de baile não concordar com a música a ser interpretada. Ou então, numa comparação bovina, ninguém imagina que Antonio Carlos Magalhães vai aceitar que decretem o final dos seus quase 50 anos de vida pública sem reação, com a placidez aplicada de uma vaca mocha se encaminhando para o brejo ao sol do meio dia. E nem se imagina, pelo menos no momento, quem seria o capataz habilitado para cercar essa vaca.
As coisas poderiam se dar num cenário campestre, bem bucólico, onde entrariam vaquinhas ruminando a sua mansuetude e a cavalinhos na beira da cerca, como numa redação infantil, se os tempos fossem outros. Agora existem bodes feios e outras bestas nesse cenário. É final de governo. As denúncias de corrupção são escabrosas. Existe uma crise econômica no vizinho, a Argentina, ameaçando pular a porteira. E os meninos que defendem o governo estão cada vez mais indisciplinados, cada vez mais endiabrados.
Por isso qualquer decisão simplista não será satisfatória. O modelo político iniciado na Nova República e consolidado com a Constituição de 1988 se esgotou. Está virando pó. E para quem duvida é só lembrar as lideranças nacionais com respeitabilidade: Jader Barbalho, Antonio Carlos Magalhães, Itamar Franco, José Sarney, Miguel Arraes, Aloysio Nunes Ferreira, Jorge Bornhausen, Garotinho, César Maia, Lula e tantos outros. Alguns bem informadíssimos e, não se sabe porque, metidos até o pescoço nesses últimos acontecimentos.
Não há chance de tratar o Painelgate – a violação do painel de votações e o estupro na credibilidade do Senado – como caso isolado. Poderá ser a gota d’água. A demonstração cabal da insensibilidade ética dos políticos. O limite da pouca vergonha e do sentimento de impunidade. E não por ser o mais grave, mas pelo seu ‘‘bufonismo’’, pelas cenas ridículas que está proporcionando. O choro de José Roberto Arruda, um coadjuvante, querendo ser prima-dona, mostra bem como a encenação não respeita mais a platéia. A turma do gargarejo, ao invés de se divertir com tamanha histrionice, irrita-se.
Mais: está ficando indignada. Não está mais suportando esse desfilar de figuras patéticas, verdadeiros aleijões da representação popular. Gente que não consegue mais enganar porque o enredo é falso demais. E, já corre insistentemente, pelos porões de Brasília, que a realidade dos bastidores é muito mais malcheirosa do que aquilo que até agora foi apresentado no palco.
Mexer com esse material pouco nobre está dando engulhos.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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