Sangue em Gaza - A guerra sem fim entre dois povos irmãos
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sábado, 26 de julho de 2014
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
Após o Holocausto que exterminou milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, uma resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) que previa a divisão do então território da Palestina em um estado árabe e outro judeu deu sustentação para a criação do estado de Israel, em 1948. De acordo com o professor Argemiro Procópio, da área de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), esta decisão marcou o início do conflito entre dois povos que, até então, conviviam pacificamente na região.
Com mais semelhanças do que diferenças em relação à cultura e à religião, judeus e palestinos abriram mão de uma boa convivência histórica para dar vazão à intolerância que resultou em embates sangrentos, como é o caso do atual conflito que já resultou na morte de quase 700 civis palestinos.
Procópio lembra que, com apoio dos Estados Unidos, Israel se transformou em um estado bem organizado, enquanto o mundo islâmico seguiu dividido, envolvido em brigas internas que de certa maneira facilitam o que considera um massacre de judeus sobre palestinos.
A interferência dos Estados Unidos no conselho de segurança da ONU impede qualquer tipo de retaliação diplomática contra Israel. Para o professor, a concentração do poder mundial na mão de poucos países é mais um agravante do que considera uma "anarquia mundial" que resulta em barbáries como esta que o mundo assiste perplexo na Faixa de Gaza, na Palestina.
Quais as origens do conflito entre Israel e Gaza?
Temos que entender que o povo palestino ou seja, árabe e o povo judeu sempre foram castigados e perseguidos pela Igreja Católica através dos séculos. Foram mortos pela Inquisição, pelas Cruzadas, pelo resgate do Santo Sepulcro. Árabes e judeus eram colocados no mesmo "tacho" e inclusive juntos. Este ódio contra árabes e judeus é secular e, de certa maneira, é um ódio contra duas tribos bíblicas: uma chamada de Filhos de Ismael, que são os palestinos, e outra de Filhos de Israel, que são os judeus. São irmãos, do mesmo tronco. Por isso, judeus e palestinos têm os mesmos costumes. Ambos são povos circuncisos, não comem carne de porco, as orações são muito parecidas, ambas as religiões são monoteístas, ou seja, acreditam em um único Deus e ambas acreditam no Abrahão. São povos que têm muita coisa em comum e, por séculos, viveram juntos. Com a construção do estado de Israel, depois do Holocausto, na Segunda Guerra Mundial, quando mataram milhões de judeus, esta construção começou a excluir os palestinos da vida e da geografia. Aí começaram as rivalidades. Mas é preciso sublinhar que historicamente, durante milênios, são povos irmãos que sempre viveram juntos.
Com relação à questão religiosa, os judeus consideram a Faixa de Gaza como a Terra Prometida?
Ambos os povos conviveram pacificamente por milênios em Judeia, Samaria e Galileia. É a Terra Prometida para judeus e palestinos, que viveram juntos até 1949, quando se consolidou a criação do Estado de Israel.
Após o final da Segunda Guerra Mundial, quando iniciaram os conflitos na região, como tem sido a convivência entre judeus e palestinos?
O Estado de Israel, com apoio dos Estados Unidos, se solidificou e experimentou desenvolvimento tecnológico fantástico. É um estado muito bem organizado. Os judeus, pelo fato de terem sido quase eliminados da face da terra na Segunda Guerra Mundial, se uniram e transformaram um deserto em exportador de produtos agrícolas. Com pouca água, fizeram verdadeiros milagres. É uma democracia muito bem organizada que destoa do mundo árabe que é dividido em várias confissões religiosas, como sunitas, chiitas e outras. A divisão do islamismo em diferentes tendências ressoa na vida palestina. Enquanto os palestinos estão massacrados pelos bombardeios, os árabes estão brigando na Síria, no Irã, soltando bombas no Iraque... As brigas internas no mundo islâmico de certa maneira facilitam esta ação de Israel contra o povo palestino.
O senhor enxerga algum retrocesso nesta convivência que explique este massacre?
Retrocesso não, porque este processo tem sido em ziguezague. É uma disritmia. No mesmo momento em que ficamos impressionados com Shimon Peres (presidente de Israel) e Mahmoud Abbas (presidente da Palestina) em Roma plantando uma muda de oliveira nos jardins do Vaticano, convidados pelo Papa Francisco para orar pela paz, de repente acontece esta guerra, estes bombardeios que já mataram quase 700 palestinos, sobretudo crianças e mulheres.
Israel teve o próprio povo quase exterminado na história recente, pelo nazismo na Segunda Guerra Mundial. Por que agem de forma a massacrar os palestinos tendo passado por esta experiência?
Israel alega que age em autodefesa porque os palestinos estão lançando mísseis, que vêm através de túneis. Israel quer destruir estes túneis. O território é pequeno, se os mísseis caem, imagina o estrago? Na verdade é uma destruição mútua. Mas não se sabe até quando Israel vai ter apoio dos Estados Unidos nesta guerra. Se o apoio cessar, Israel fica totalmente vulnerável.
Os Estados Unidos podem sair deste conflito?
Nenhum apoio é eterno.
Porque a Organização das Nações Unidas (ONU) não consegue mediar este conflito?
As Nações Unidas têm um Conselho de Segurança com poder de veto formado por cinco países: China, Rússia, Estados Unidos, França e Reino Unido. Qualquer medida retaliatória forte contra Israel é vetada pelos Estados Unidos.
Qual o interesse dos Estados Unidos no conflito?
A presença judia nos Estados Unidos é enorme, na mídia americana, nos jornais, na academia. O povo judeu tem peso na sociedade americana e influi nas eleições, porque está em áreas decisivas, na imprensa, na ciência, na produção intelectual. O lobby judeu é muito forte.
Mas tem uma parcela de judeus se posicionando contra o conflito...
Tem sim uma grande parcela de judeus contra o conflito. O grupo hebreu é extremamente esclarecido e está insatisfeito com esta guerra. Querem a paz porque sabem que a única maneira do estado de Israel sobreviver é através da paz. Eles sabem que através da guerra não dá certo e têm se mobilizado contra a guerra. Grandes inteligências judias estão contra a guerra, por isto este apoio dos Estados Unidos pode estar com o dias contados. E tem também o custo econômico por trás dos conflitos, pois significa mais impostos e piora das condições de vida para o povo de Israel.
Alguns analistas, na imprensa internacional, classificam este conflito como desproporcional e até chamam de "crimes de guerra" os ataques de Israel...
Não é guerra, porque não foi declarada. É um conflito, realmente desproporcional, como se fosse David e Golias.
Israel pode ser punido pelos abusos?
Não existe punição porque não tem ninguém para colocar ordem no mundo, vivemos de acordo com a lei da selva, vence o mais forte. Quem vai punir? Este é mais um reflexo da anarquia mundial.
O que seria necessário para resolver esta situação?
É necessário uma ONU não manipulada por um conselho formado por cinco países e uma democratização dos organismos internacionais. Precisa haver a divisão do poder mundial. Tomas Hobbes em Leviatã já escreveu sobre a desorganização dos estados. O mundo está anárquico e não tem ninguém para por ordem. Isso gera conflitos desproporcionais, como o caso de um estado tão organizado como Israel bombardeando e matando civis. Por outro lado, não tem ninguém para por ordem na Palestina, que às vezes usa a população como escudo. A ação armada de Israel é uma barbárie, assim como usar a população civil para guardar mísseis também é uma barbárie.
Quais as consequências deste conflito?
Primeira consequência é a imagem de Israel, que ficou prejudicada. Israel perde muito com estes ataques que têm reprovação maciça do mundo todo. Israel está virando o "anão diplomático" do mundo (ironizando a declaração do porta-voz do ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmo, que chamou o Brasil de "anão diplomático" após o país se posicionar contra os ataques)
E para o Oriente Médio, quais as consequências?
O povo árabe etá muito dividido, a Primavera Árabe ocasionou uma instabilidade ímpar na região. Esta divisão é que possibilita a Israel agir desta forma.
Qual a solução ideal?
Só tem um caminho, que é o caminho do diálogo, o caminho da paz. Não tem outra solução a não ser os dois povos convivendo juntos, como fizeram na história inteira. Repito que há muitas semelhanças entre eles, que precisam explorar mais as convergências do que as divergências.


