Os debates entre os candidatos têm tido, nesta campanha, um papel fundamental. Servem para mostrar não apenas os programas de governo mas o estilo e o comportamento dos candidatos, oferecendo aos eleitores uma apreciável comparação de perfis. A propósito, cabe lembrar que a população gosta de saber como agirão os mandatários, o jeito de cada um, a maneira de agir e essa curiosidade acaba conduzindo as atenções e os interesses para a esfera da conduta pessoal. Nesse sentido, as acusações e o palavrório inserido no capítulo das impertinências verbais fazem parte do jogo.
A pergunta mais recorrente é sobre a eficácia dos debates no índice de intenção de voto. Certas posições conhecidas merecem ser reafirmadas. A primeira é a de que o debate é mais importante para quem está perdendo do que para quem está ganhando. E a razão é esta: quem está atrás pode ganhar pontos com tacadas corretas; quem está à frente se arrisca a perder, caso não se saia bem, seja muito confrontado ou cometa uma gafe monumental.
A segunda vertente é a de que o debate poderá ser uma ótima oportunidade para um candidato desfazer um mal-entendido, provocado por uma declaração pinçada de um contexto ou a versão maldosa de um ponto de vista. Sob esse aspecto, o espaço do debate poderia interessar muito a Ciro Gomes, que tem um razoável conjunto de dissonâncias a corrigir.
E quando os candidatos se equivalem na força do ataque e num desempenho quase semelhante na defesa? Poucos hão de concordar que há empate técnico em um debate, porque a tendência dos eleitores é a de considerar que seu candidato venceu os adversários. Foi o que ocorreu no último debate entre os presidenciáveis, promovido pela TV Record. Serra e Ciro se digladiaram, Lula assistiu à luta de camarote, passeando olimpicamente pela arena, e Garotinho atacou por todos os flancos, com virulência maior dirigida ao tucano.
Ao dizerem que Ciro não leva desaforo para casa, os ciristas querem dizer que seu candidato ganhou. Ao afirmarem que Serra demonstrou ser bom de briga, os serristas tentam passar para diante a convicção de que o ex-ministro da Saúde foi o vitorioso. Entre a insistência dos dois grupamentos, o melhor é constatar o processo de canibalização recíproca, algo como flechas opostas que caem no chão, depois de um choque no ar.
Nesse caso, a vitória de um ou outro será conseguida mais adiante, quando a tuba de ressonância das campanhas, somada à influência das pautas jornalísticas e ao peso das pesquisas de opinião, derem o tom. A vitória será atribuída ao candidato com maior volume de comunicação.
Se o adversário ainda contar com a indisposição e o tom negativo de parcela da mídia, levará a pior. Ciro Gomes, nesse caso, será o perdedor, porque Serra dispõe de maior poder de reverberação de discurso e Ciro cometeu o grave erro de brigar com a mídia e jornalistas. Outra discussão envolve a situação de Lula. Teria ganho com a discussão acirrada de dois concorrentes? É possível, mas uma aparente vitória de quem permaneceu à parte não quer significar adição de votos no índice de intenção de votos.
Quem já vai votar no candidato do PT apenas consolida a opinião com o debate, onde Lula tentou passar a imagem de uma pessoa equilibrada e sensata. Sob outro aspecto e para outros grupamentos, Lula poderá ter sido ofuscado pela contundência discursiva entre Ciro e Serra, perdendo em visibilidade. A polarização entre os dois chama a atenção dos eleitores, podendo gerar um consequente aumento de intenção de votos. Ou seja, se a campanha esquentar entre os dois poderá ofuscar o perfil de Lula. O Lula olímpico e distante até tem passaporte garantido para o segundo turno. Não se pense, porém, que o segundo turno é luta de peso pena. São rounds para peso pesado nenhum botar defeito.
Quem for lutar contra Lula no segundo turno, não entra fraco como imaginam os lulistas. O adversário entrará no jogo com a força das tacadas do primeiro turno, a imagem de vitorioso, a vibração das bases e uma tendência de crescimento na intenção de voto de indecisos. Se for Serra, ele receberá o empuxo do establishment. Se for Ciro, Lula arrebatará os maiores contingentes. Para não esquecermos Garotinho, resta dizer que ao atirar para todos os lados, mostrou que a zoada provocada tem apenas a intenção de criar ecos para 2006.
Os debates que ainda virão serão os dois últimos rounds antes do segundo turno. A perspectiva é a de que haverá muito sangue.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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