Mesmo entre os governistas e pessoas que apóiam o presidente Fernando Henrique Cardoso começa a surgir a convicção de que o governo já não pode sustentar-se apenas no samba de uma nota só, que é o êxito do controle da inflação. Faltam realizações para neutralizar o alto índice de desemprego, sobretudo entre os jovens recém-saídos das universidades, e medidas concretas contra os recentes abusos praticados em torno dos precatórios, de modo a sublinhar, perante a opinião pública, a idéia de que FHC, em matéria de combate à corrupção, é mais rigoroso do que seus antecessores.
O problema, nesse particular, é que qualquer reação do governo pode atingir grandes eleitores do atual presidente e, além disso, intranquilizar o sistema bancário nacional.
Sob esse aspecto, portanto, seria mais fácil encontrar alguma saída honrosa para encerrar as investigações da CPI, do que levá-la a bom termo, com a identificação de quantos se locupletaram às custas dos títulos dos precatórios.
Um dos aliados do governo, o ex-prefeito do Rio, economista César Maia, estranhou, a propósito, que o Senado aprovasse precatórios para estados que não cumpriram o compromisso de reduzir gastos públicos.
Baseados em favores idênticos, concedidos pelo governo federal, governadores e prefeitos, segundo Maia, também fizeram reajustes excessivos aos servidores comissionados, o que gerou uma onda de cobranças de todo o funcionalismo.
O ex-prefeito não o declara abertamente, mas também insinua que o governo federal se submeteu a tais abusos, talvez por precisar do apoio político dos prefeitos e governadores, para conseguir do Congresso o direito de reeleger-se em 1998.
Aqui, nesse espaço, já se mostrou, quanto aos precatórios, que a omissão presidencial e de seus representantes, no Senado, parecia dever-se exatamente à luta pela reeleição presidencial.
Diante de tudo isso, os governistas acham que terão de fazer alguma coisa, para que a idéia de omissão não se generalize, comprometendo as perspectivas político-eleitorais de FHC e a própria credibilidade do Plano Real.
O atual embaixador do Brasil na OEA, o ex-presidente Itamar Franco, deixa esse posto, em breve, e volta ao País para tentar reunir, em torno de seu nome, as forças políticas da esquerda, os cacos do PMDB e as dissidências dos demais partidos, descontentes com as omissões de FHC e as ações de alguns de seus ministros. Se ingressar, como se espera, no PMDB, Itamar assume, na prática, sua candidatura à sucessão presidencial de 1998, ainda que FHC concorra à reeleição. Nesse caso, será o contraponto de um governo cercado de problemas que não consegue resolver, fora de sua pauta musical.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília. Ruy Fabiano, que escreve regularmente neste espaço, está de licença.

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