Salvem o charuto! - José Antonio Pedriali
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de fevereiro de 1999
José Antonio Pedriali 
Humanos de todos os quadrantes, regozijai-vos: o mundo não vai mais acabar neste Carnaval - o presidente Bill Clinton foi absolvido! Ficha limpa, vida nova para o homem mais poderoso do país mais poderoso do globo. Sequer uma moçãozinha de censura o Senado americano se dignou a aprovar, ou ao menos votar, para dar um puxão de orelha no presidente por ele ter pulado a cerca, ou simplesmente baixado as calças, com a ex-estagiária e promissora personagem de inumeráveis best-sellers picantes Monica Lewinsky.
Perjúrio, este crime hediondo em se tratando de um presidente dos Estados Unidos? Necas, Clinton não o cometeu - assim decidiu o Senado, apesar de todo o mundo ter assistido, pela TV, como ele embromou os membros do Grande Júri durante julgamento e jurando sobre o Livro dos Livros. Obstrução da Justiça, coisa cruel, impensável e imperdoável em se tratando de alguém com a responsabilidade inerente ao cargo de presidente dos EUA? Muitos menos, nem pensar nisso - assim também considerou o Senado, embora sejam ululantes os indícios de que Clinton ludibriou a estagiariazinha para que ela lhe devolvesse bilhetes e outras provas incriminadoras daquelas carícias secretas (o tal vestido azul, com manchas do líquido presidencial, foi apenas um descuido, ou uma vingança, do Destino).
Humanos de todos os quadrantes, regozijai-vos: o algoz do presidente, o superstar Kenneth Starr, o promotor público número um do mundo que atazanou o próspero governo clintoniano, este perverso, este cruel, irá saber agora o quanto dói o próprio calo. Pois na véspera da sábia decisão dos senadores, o Departamento de Justiça havia anunciado que iria investigar a atuação do promotor no affaire presidencial. Acusação número 1: ele mentiu para Janet Remo, a secretária de Justiça, ao induzi-la a autorizar a investigação sobre Monica sem alertá-la que seu alvo era Clinton. Acusação número 2: ele vazou informações confidenciais do processo para a imprensa. Acusação número 3: ele abusou de sua autoridade ao submeter o presidente ao Grande Júri.
A nação americana e o mundo globalizado suspiraram aliviados ontem, mas só encontrarão a paz de consciência depois que punirem o punidor, depois que aplicarem a Justiça ao advogado do diabo, depois que condenarem o homem que nos condenou, durante mais de um ano, à espera angustiante de que Bill Clinton, nosso herói, tivesse enfim sua inocência reconhecida, sacramentada e chancelada pelo Senado.
Humanos de todos os quadrantes, regozijai-vos: no final da conta, todos saíram ganhando. Ganharam os megainvestidores, injustamente chamados de especuladores, que apostaram, no momento em que Clinton era colocado contra a parede, na estabilidade política e econômica dos Estados Unidos e abarrotaram os cofres daquele país, e os seus, de papéis e dinheiros retirados dos ditos emergentes, como nós, tratados agora como sabugos de milho. Ganhou Kenneth Starr, que, apesar do imbroglio jurídico que o aguarda, fez a fama e poderá concorrer a qualquer cargo político (desde que não à Presidência, pois sabe-se lá que rabo de saia seu passado esconde). Ganhou Monica Lewinsky, que além de fama (e outras famas) encherá as burras com suas autobiografias e entrevistas.
Só um personagem dessa história (que moral teria ela?) acabou perdendo - o charuto! Pois desde que se tornaram públicos e notórios os detalhes dos encontros fogosos de Clinton e Monica, esse objeto de prazer inocente revelou outra utilidade que a tradicional, centenária, de adocicar o paladar de tabagistas exigentes. E por isso tornou-se vítima global da chacota.
Humanos de todos os quadrantes, regozijai-vos, sim, mas penitenciai-vos também. Pois a punição recaiu justa e unicamente sobre o mais inocente de todos os personagens desta história. Justiça! Justiça! Justiça! Reabilitemos o charuto!
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha em Londrina


