Salvem as baleias e as universidades públicas
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sexta-feira, 19 de outubro de 2001
Telma Gimenez 
Vou desde logo me desculpando por ter usado as baleias para chamar sua atenção, por razões que logo adiante se tornarão mais claras. Meu texto tem como foco a crise de identidade vivida pelas universidades públicas hoje e as ameaças que sobre elas pairam.
A primeira ameaça vem da própria sociedade, que assiste, na maioria das vezes, impassível, ao descaso manifestado pela intransigência do Poder Público. Professores e funcionários entram em greve, interrompendo atividades de ensino, pesquisa e extensão e ninguém parece se importar.
Ironicamente, o único setor que faz alguma diferença é o da prestação de serviços na área da saúde. O fechamento de hospitais universitários parece ser a única decisão de impacto - pelo menos imediato, porém afetando as parcelas menos favorecidas da sociedade. Não há na mídia a mesma preocupação com o ensino de graduação ou de pós-graduação, até porque com a possibilidade de reposição de aulas todos sairão ''ilesos''.
E a pesquisa? Quem se importa com a suspensão dos projetos de pesquisa, grande fator diferencial das universidades públicas, onde se gera conhecimento e tecnologia? E a extensão, considerada parte essencial das funções da universidade? Quem se ressente da sua ausência por períodos prolongados?
A segunda ameaça vem de governos eleitos democraticamente pela mesma sociedade. Com o foco de seu interesse voltado essencialmente para preservação do capital, e com investimentos substanciais para sustentação da economia agora mundializada, dá as costas para o caráter público (isto é, sustentado pelo Estado) da educação superior e, sob alegações de exaustão de recursos, deixa as universidades públicas em greve sem perspectiva de futuro.
Talvez em função da primeira ameaça, no discurso oficial, pressionado pela mídia, o governo dicotomiza a relação população/universidades e se coloca, cinicamente, para defender os interesses da população. E quais seriam, afinal, esses interesses?
A terceira ameaça vem da política educacional em vigor. Tendo optado pela universalização da educação básica e alocado recursos para o ensino fundamental, através de políticas de incentivo a acesso e manutenção das crianças na escola, o MEC gera estatísticas melhoradas sobre matrículas, evasão e repetência, e colhe os frutos amargos nas avaliações do Saeb.
A qualidade da escola pública é sofrível. Mas, o grande número de agora ''escolarizados'' bate à porta clamando por acesso ao ensino superior. Como a prioridade não é esta, os mercadores do saber logo aparecem. Surgem como cogumelos faculdades e cursos particulares nas áreas onde o investimento é pequeno. Em recente palestra, Margarida Salomão, reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora, comentava sobre o fato de empreiteiros estarem agora entrando no lucrativo mercado da educação.
Ao invés de investir nas universidades a política do MEC parece caminhar no sentido de abrir as porteiras - com algum controle da Sesu (e doravante Inep), com requisitos para abertura e reconhecimento e avaliações do ''produto'' final - via Provão). Quem ganha e quem perde, afinal, com a formação de recursos humanos sendo feita, cada vez mais, pelo setor privado?
A quarta ameaça parece vir do próprio meio universitário, pelas políticas de gestão que desarticulam a universidade pública de um público, isto é, cidadãos interessados na sua manutenção enquanto instrumento de democratização. Isolada em seus prédios, as universidades parecem fechadas em si mesmas - com pouca transparência interna e quase nenhuma externa. Daí talvez a apatia da sociedade que a sustenta. Cabe, aqui, um papel para a mídia como articuladora da informação a respeito do que a sociedade produz (inclusive o conhecimento gerado pelas universidades), criando um jornalismo que busca o problema por trás do problema, e não ficando apenas na superfície dos fatos.
Essas ameaças são sérias e, entrelaçadas entre si, produzem um quadro preocupante, que poderá, no futuro (talvez não muito distante) levar universidades públicas a serem incluídas em roteiros turísticos - os campi transformados em nostálgicas lembranças de um tempo em que se acreditava no poder da educação pública para construção de uma sociedade mais justa.
E as baleias? Bem, elas ainda têm o Greenpeace...
- TELMA GIMENEZ é professora universitária em Londrina


