A decisão tomada na quinta-feira pelo Conselho Universitário da Universidade Estadual de Londrina, de suspender por tempo indeterminado o vestibular da instituição, representa um feito gravíssimo sob vários aspectos. Ela mostra que a sociedade londrinense - e do Estado como um todo - está sendo desrespeitada em níveis sem precedentes.

Os danos decorrentes da mais longa greve da UEL e agora da suspensão do vestibular são incalculáveis. A paralisação parcial do HU e do Hospital das Clínicas coloca vidas em risco todos os dias e o nome da universidade sofre um desgaste progressivo. Há um jogo de forças entre o governo do Estado, o comando de greve, o Conselho Universitário e também a reitoria cujo prejuízo é pago não por eles, mas pelos estudantes e a comunidade.

A Acil vem participando dos debates e das negociações desde o início da greve da UEL na esperança de que o bom senso fosse prevalecer e o movimento pudesse chegar a um fim satisfatório. Mas tudo indica que o interesse dos envolvidos, sem exceção, é exatamente o contrário.

O governo do Estado subestimou o movimento desde o início, mostrando-se num primeiro momento negligente e irresponsável. Agora, consciente de que a paralisação tem força, está sendo incompetente para encontrar uma solução. E também arrogante ao ponto de se apegar no argumento da Lei de Responsabilidade Fiscal como desculpa pronta para não assumir qualquer compromisso futuro.

O discurso e as atitudes do governo nos permitem deduzir que, para o Estado, quanto pior for o estrago na UEL e nas outras duas universidades em greve (UEM e Unioeste) melhor é ou melhor será. Nada explica a falta de ação do governo nessa crise.

A sociedade reconhece que os salários pagos pela UEL, em alguns casos, estão defasados, entretanto em outros, muito acima do razoável. Mas fica claro que a situação, a essa altura, fugiu ao controle e que influências políticas estão sendo colocados acima dos interesses da sociedade. A radicalização foi a postura adotada pelo comando de greve, que buscou nas entidades de classe a participação e o apoio. E obteve ambos. Mas, no momento de dar um passo à frente, para atender aos anseios da sociedade, optou por endurecer e mergulhar a universidade no caos, irresponsavelmente e indiferente às consequências da medida.

Também ao Conselho Universitário faltou bom senso e sobrou corporativismo. O conselho está longe de agir à altura de sua condição de órgão máximo e soberano em suas decisões. Num ambiente com direito a batuque e torcida organizada, em clima de assembléia, ele vota e decide sobre o futuro da instituição, transformando o reitor em seu refém, uma personalidade apenas figurativa. E reforça, como ocorreu nessa quinta-feira, que tem os olhos voltados para si e fechados para a sociedade. Das 70 cadeiras do conselho, apenas três são ocupadas por entidades de fora do campus universitário tornando sua representatividade inócua e impotente, vistos como intrusos.

É preciso que a sociedade - da qual nasceu e à qual pertence a UEL - acorde para seu papel diante dessa crise. Os danos causados pela greve estão sendo usados como moeda de troca pelo governo e pelos grevistas, esses invocando o preceito sagrado da autonomia e do abstrato conceito de produção do conhecimento. E quem paga a conta é a comunidade. Do caos deve nascer uma nova relação da sociedade com a universidade, mais responsável, mais coerente, mais adequada. Isso só será possível com a reformulação do Conselho Universitário com a participação de um número maior de conselheiros apontados pela comunidade. Indispensável também que se reveja o processo eleitoral, e que se defina o que significa realmente a propalada autonomia sob a qual estão soterrando o futuro da instituição.

- GEORGE HIRAIWA é presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil)

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