‘‘Save a forest! Burn a Brazilian!’’. Soube que alguns automóveis circulam por Londres com esse adesivo. Muito engraçado, principalmente para quem não é brasileiro. E muito revelador da alma humana, a mesma porcaria em todos os países. Equivale a protestar contra roupas de pele de animais selvagens, promovendo o uso de roupas de pele de caçador.
A indignação, contudo, é compreensível. É produto da sensação de impotência dos defensores da natureza. Zombam de seus protestos motosserras famintas, incêndios colossais, tiros de caçadores, indústrias poluidoras, governos municipais com seus esgotos. Minha filhota, Priscila, vendo-se impotente para fazer valer sua vontade, de punhos e dentinhos cerrados dizia: ‘‘Dá vontade de cre-bá!’’. E o pai, secretamente: ‘‘Essa bichinha teve mesmo a quem puxar!’’
A costa brasileira já foi muito mais linda. Quando os primeiros caras pálidas aqui chegaram, encantaram-se com tanta beleza. Imagino-os sem fôlego e mudos, frente a frente com a exuberância de tanto verde, cabeças levantadas, narinas abertas, sorvendo cheiro de vida. Quanto invejo os desgraçados! Puderam ver o que eu jamais verei: o Brasil saído do pincel da própria divindade. Era a majestosa Mata Atlântica.
Mas o bolso falou mais alto e a destruição começou. Hoje restam, no máximo, 8% daquela beleza original. Madeireiras, poluição de Cubatão e incêndios florestais estão garantindo, porém, que daqui a pouco a última árvore terá passado desta para pior. Querem deixar tudo com a cara de São Paulo e Cubatão - a propósito, ‘‘batão’’, em tupi forjado, significa ‘‘do mundo’’ - rios podres, imundície generalizada e ar saturado de gases e partículas insalubres. Só idiota muito do babão chamaria tamanha nojeira de progresso.
Diante de ameaças de internacionalização da Amazônia, que fazem os legisladores tapuias? Em vez de criar leis que dêem proteção eficaz ao meio ambiente, teimam em deixar tudo como está, para não atrapalhar a vida de madeireiras bandidas e fazendeiros burros. Ai, que vontade que dá ... de ‘‘cre-bᒒ!
A famigerada bancada ruralista da Câmara dos Deputados parece só fazer uso de seus formidáveis poderes para dar calotes no Banco do Brasil, manter o perfil injusto de distribuição de terras e proteger interesses escusos de usineiros sebosos. A prova disso, irrefutável, é que ela jamais conseguiu a única coisa de que a agricultura brasileira precisa, a saber, uma política agrícola moderna e eficiente, que associe maior produtividade e lucratividade à obrigatória preservação do meio ambiente.
Agricultura predatória resulta em desertificação, voçorocas, assoreamento de rios e córregos, alternâncias de terra inundada com terra ressecada e perda de milhões de toneladas de terra fértil todos os anos. É de pasmar que esses senhores não se importem com isso.
Formada de gente atrasada, incapaz de ver o delicado equilíbrio entre todos os seres vivos, a bancada ruralista já ameaçou atrapalhar a aprovação do que falta da reforma da Previdência, se a proposta de lei de Fábio Feldmann, apoiada por Gilney Viana, que garante a preservação do que sobrou da Mata Atlântica, não for engavetada.
Helena Chagas comentou isso em ‘‘S.O.S. Congresso’’ (‘‘O Globo’’ de 6 de junho), informando que, durante os seis anos em que este assunto foi discutido, já foi devastada área da mata equivalente a 714 mil campos de futebol. E o campeão de devastação é o Estado do Rio. Com legisladores desse jaez, perigamos cair no Quarto Mundo, se não nos Quintos.
Tudo leva a crer que a estupidez e a cupidez de mais de cem deputados vai decretar o fim desse restinho de Mata Atlântica que deveria ser a menina dos olhos do povo brasileiro. Só nos resta uma saída: fazer sobre a Câmara pressão muito maior do que a da bancada dos babões, ecologicamente analfabetos.
Todos os jornais, revistas, estações de rádio e de televisão do País têm obrigação moral de fazer campanhas pela salvação da Mata Atlântica, abrindo espaço ao voto da população. Afinal, já se fizeram campanhas de bem menor relevância. Ou isso, ou adeus Mata Atlântica. As motosserras não param!
O sonho de muitos brasileiros como eu é um dia poder nadar e pescar no Rio Tietê e no Rio Pinheiros. É passar pelo Riacho do Ipiranga (está lembrado? Aquele do ‘‘Independência ou Morte!’’) sem vomitar. É saber que todos os cursos d’água do Brasil são limpos e piscosos. É ver o País enriquecer com o encantamento e a poupança de turistas vindos de todas as partes do mundo, para sentir a força de nossos bosques, que ‘‘têm mais vida’’. Ou será que nosso sonho não tem status de ‘‘utopia do possível’’?
Ou paramos com a destruição da natureza, ou corremos o risco de começarem a levar a sério a brincadeira do adesivo: ‘‘Salve uma floresta! Queime um brasileiro!’’
- ISMAR PEREIRA FILHO é tradutor e revisor em Brasília

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