Salvar
o SUS?

José Bulaty Filho
Há tempos discute-se a prestação de serviço público em saúde no Brasil. No momento, vilão de plantão, atende pela alcunha de Sistema Único de Saúde. Ele é impessoal, despersonificado, presente no tempo e no espaço, mas nunca é atingido, mesmo no aspecto tátil, visto os ataques constantes que ele sofre das entidades médicas, sociedade organizada, imprensa e, até mesmo, pelos três poderes constituídos do país, como se deste o tal SUS não fizesse parte.
O médico, por sua própria formação técnica e destinação dentro desse sistema monstruoso, absorve ou no mínimo recebe a grande maioria das críticas desferidas sobre o funcionamento ineficiente. Raras vezes refuta tais críticas, sofrendo processos penais que correm por este Brasil. Quando se defende o faz com a tradicional chorumela ‘‘minha consulta pelo SUS vale tantos cafezinhos...’’
Este comportamento do médico nada tem a ver com altruísmo, participação social construtiva, posição ideológica e, pior, nada a ver com profissionalismo. Esta categoria de trabalhadores (não classe de profissionais) coloca-se à margem do processo social que, ao longo dos anos, vem acontecendo no Brasil.
Chegou-se a tal ponto que, em função das circunstâncias conhecidas, ter se criado uma lei da compensação, reconhecida e de certo modo praticada pela grande maioria da sociedade na qual o governo finge que paga e o médico finge que atende.
Às vezes acontece, conforme a especialidade ou local, do médico ficar 24 horas à disposição do sistema e nada faturar. E, ainda, o mais importante, principalmente com o avançar da idade, como ficam os benefícios sociais? Férias, aposentadoria, enfim, todos os direitos trabalhistas consagrados universalmente e o doutor brasileiro abre mão disso. Por quê?
Esta análise crítica não é dirigida unicamente ao meio médico, mas principalmente à nação. Principalmente aos dependentes do sistema, visto que as consequências do desinteresse na prestação do serviço bem conhecido, mas merecida por todos nós, omissos.
A sociedade brasileira tem que discutir o SUS com a máxima urgência e mudar radicalmente esse modelo de prestação de serviços hospitalares. A sociedade criou esse sistema, criou valores equivocados para esse profissional que, em minutos, vai do ‘‘quase deus’’ até a figura do diabo.
Isto não é justo para o cidadão como para esse profissional. Essa não é a concepção da irracionalidade geral. O próprio Conselho Federal de Medicina. Em seu canal de TV veicula uma propaganda institucional onde é mostrado um médico de branco, andando cabisbaixo e com algemas nos punhos. Imagem humilhante, ridícula.
O Conselho deveria mostrar e lutar por um médico de cabeça erguida, aos brados empunhando uma carteira de trabalho. A carteira de trabalho é um símbolo de dignidade, cidadania, profissionalismo. Chega de discutir tabela para procedimento médico. Se o médico brasileiro ainda não se convenceu desse erro histórico e não está preparado para essa discussão, a sociedade organizada não deve esperar mais ou, de modo contrário, que não reclame mais da qualidade do serviço de prestação médica hospitalar e ambulatorial de caráter público.
- JOSÉ BULATY FILHO, médico em Foz do Iguaçu

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