A morte me é de todo indesejada, seja naquilo que estorva a existência, seja no que desencaminha o milagre da vida, terminando a beleza do começo. Assim é que (de tempo em tempo) o decesso volta para aborrecer, ferindo com o ar de sua desgraça a graça de estar.

Foi o que passou ontem (02/11), quando a Parca entendeu de cortar o fio da vida e levou para o misterioso livro do seu desencanto o fabuloso poeta mineiro Lô Borges (Salomão Borges Filho).

Não conheces Lô Borges, pequeno gafanhoto? Então me deixe falar dele, antes que a tempestade venha ‘falar da cor dos temporais’, e leve todas as ‘flores de abril’, antes que alguém capture os ‘pequenos fragmentos de luz’ e ouse ‘pensar além do bem e do mal’, ‘lembrando coisas que ninguém viu’.

Imagine você, meu dileto leitor (um dos três), que, em plena ditadura, quando os fascistas represaram a alegria e capturaram a beleza, um poeta mineiro entendeu de, em conjunto com jovens músicos, fundar um clube da esquina, para poetizar e fazer música, afrontando o ideário fascista de capturar corações e mentes.

Esse clube, então visitado compositivamente por Milton Nascimento, Fernando Brandt, Beto Guedes, Wagner Tiso, compôs e musicou páginas das mais significativas de nossa música popular, ofertando um gole de fantasia na teima da esperança de dias melhores em um futuro democrático.


icon-aspas A arte, como forma de resistência, sempre significará a luz ao final do túnel.”

A arte, como forma de resistência, sempre significará a luz ao final do túnel. O clube da esquina seguiu esse roteiro, prenhe da dor totalitária de um golpe de estado, ansiando dar vasão à produção literário/musical de incontáveis artistas que eram vigiados, exilados e punidos em nome do golpe empresarial militar que instaurou nossa última ditadura (1964 a 1986).

Noves fora, é exatamente por isso que fascista não gosta de cultura e abomina poetas e escritores, músicos e atores; fascista gosta de machucar os mais fracos e lamber botas do ‘established’, à espera de uma ou outra migalha.

Neste contexto, Lô Borges foi a sensibilidade poética de minas gerais que ousou escrever ‘coisas que a gente se esquece de dizer, frases que o vento vem às vezes me lembrar, coisas que ficaram muito tempo por dizer’, e que ‘na canção do vento, não se cansam de voar’.

Na voz de Deus (Milton Nascimento) e da deusa da voz (Elis Regina), Lô Borges foi cantado em verso e prosa, metaforizando no olhar e ‘sorrindo para mim, acenando um beijo de paz, virando minha cabeça’.

Eu, ‘simplesmente não consegui parar’, ainda que ‘lá fora o dia clareasse’. Isso porquê, sempre que eu ‘quiser transformar o ribeirão em braço de mar, vou ter que encontrar aonde nasce a fonte do ser, e perceber meu coração bater mais forte só por você’.

Bendita sejas tu, metáfora – ainda hei de ouvir isso de um Padre e/ou de um pastor – e bendito sejam os filhos de tuas lembranças pelos palcos ilusórios das fantasias de nanquim que as figuras de linguagem vem desenhando na estrada da vida.

Foi a literatura a amarra ilusória de minha resistência à ditadura empresarial militar que minha infância/adolescência plantou. Foi Cervantes quem me armou de metáforas existências que, muito provavelmente ocuparam de tinta minhas mãos sedentas por uma arma que matasse fascista.

Sobrevivi a meu próprio instinto libertário por amor as figuras de linguagem que as construções poéticas ofertavam no pó da estrada e isso, definitivamente, me salvou de minha primitiva vontade de enfrentamento pelo restabelecimento da democracia.


icon-aspas Foi graças ao talento de poetas feito Lô Borges que cheguei a tempo de te ver acordar.”

Pude crescer ao lado de meus pais, ungido pelo fio indelével da existência e abraçado no amor incondicional que me encaminhou para o amanhã, onde o porvir metafórico se mostrou feliz com minha opção literária, em meio a encruzilhada do destino.

Foi graças ao talento de poetas feito Lô Borges que ‘cheguei a tempo de te ver acordar’, já que ‘vim correndo à frente do sol’, suposto que ‘abri a porta e antes de entrar, revi a vida inteira’.

Essa vida então revista seguiu metaforizando minhas desalegrias de bem viver, ressignificando o que seria ‘pensar em tudo que é possível falar, que sirva apenas para nós dois’ – e, então, pude observar ‘sinais de bem, desejos vitais, pequenos fragmentos de luz’.

Obrigado Lô, que a terra te seja leve, como leve foram as metáforas que se lhe escaparam por entre a vida e a ilusão.

Saudade Pai.

Tristes e mais pobres trópicos, com o passamento de Lô Borges.

João Gomes Filho - Advogado


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