A convocação extraordinária do Congresso, que se encerrou ontem, custou aos cofres públicos R$ 9,5 milhões, em salários e jetons. Valeu a pena? Segundo o ministro Reinhold Stephanes, só no primeiro ano de vigência da reforma da Previdência - uma das matérias aprovadas no período da convocação extraordinária - haverá economia de 4 bilhões de reais aos cofres públicos, considerando-se somente os três itens que entrarão em vigor na data da promulgação. E mesmo somando a esse custo os R$ 26 milhões que o Governo teve de liberar para obras nos estados e municípios de alguns parlamentares - a fim de obter-lhes os votos -, a conta quadruplica, mas ainda assim a diferença custo-benefício é enorme.
O que não valeu a pena - pelo desrespeito e pelo prejuízo causado à democracia - foram as exigências indecorosas de alguns parlamentares, não para conseguir obras em seus redutos eleitorais, mas para obter favores pessoais. Todavia, ainda que lamentável, esta é uma das mazelas presentes nos meios políticos do mundo inteiro e só poderão ser extirpadas quando os eleitores deixarem de votar em quem não presta. Não se sabe se o Governo os atendeu ou atenderá. É preciso estar atento.
O que, porém, mais se ressalta é que há muito tempo não se via uma convocação extraordinária do Congresso tão produtiva como esta que está se encerrando. Não somente a votação da reforma da Previdência pelo Senado, mas muitas outras matérias de relevância - inclusive a votação, também em primeiro turno, da reforma administrativa pela Câmara - transformaram esta etapa numa das mais efetivas do trabalho legislativo federal. Pode-se mesmo dizer que nestes poucos dias o Legislativo produziu mais (proporcionalmente) do que nos três anos da atual legislatura, agora em seu último ano.
Isto é uma demonstração inequívoca de que o Congresso, quando quer, pode realizar sua tarefa institucional. Quando há vontade política, as coisas acontecem. O Congresso também provou que não é insensível às dificuldades que se apresentam ao País, embora outras vezes sua reação tenha sido lenta demais ou mesmo de desinteresse. Todos vimos como a crise econômica na Ásia e o pacote de novembro fizeram o Congresso se mexer após três anos de inação - ou omissão - no capítulo das reformas estruturais. Mas se inexistisse sensibilidade, não haveria reação.
A crise foi um despertar, felizmente, ao invés de ser o fim. Os políticos verdadeiramente responsáveis assumiram seu papel nos destinos da Nação. A partir de março, com a retomada do trabalho normal, os brasileiros esperam o mesmo espírito e a mesma disposição. O ano eleitoral não deve ser motivo para mais atrasos nas grandes decisões. Ainda temos um sistema tributário absurdo e uma legislação trabalhista importada dos tempos de Mussolini, na Itália. Não é possível progredir desse jeito, e Governo e Congresso são responsáveis pela intocabilidade dessas duas necroses da vida brasileira.
O fato de que a maioria dos parlamentares estará em campanha para a reeleição não diminui sua responsabilidade. Ao contrário, se pretendem continuar a merecer a confiança do eleitorado, têm que mostrar trabalho e dedicação plena às tarefas para as quais foram chamados pela soberana vontade das urnas.

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