Salários e direitos humanos Rubem Azevedo Lima O departamento de estado dos Estados Unidos fez tantas e tais desgraças no mundo que, a rigor, poucas pessoas lhe conferem autoridade política e moral para falar das mazelas dos outros países. Dentre os que ainda parecem crer nesse departamento está o ex-quase ator e presidente Fernando Henrique, adepto da nova ordem econômica mundial, dogma imposto pelos EUA e seus parceiros ricos aos países que tentam desenvolver-se e vencer suas misérias. Esse feito, porém, nem os americanos, apesar da pujança de sua economia, chegaram a realizar. Pois, por má sorte de FHC, tal departamento acusou o Brasil – isto é, o governo – de violar os direitos humanos de seus trabalhadores ao fixar-lhes o salário mínimo de US$ 75. Essa e outras violações, comuns na América Latina, ameaçam, de verdade, a ordem social e a democracia, num subcontinente marcado por frequentes improvisações políticas e jurídicas. No Brasil, tais fatos geram mais lucros aos bancos (em 1999, foram R$ 3,750 bilhões), mais desemprego (7,7%), menores salários (queda de 5,5%) e mais poder aos governantes para manipularem a opinião pública e se reelegerem quando isso convém aos países hegemônicos. FHC reafirma que sua política é correta e indispensável ao País e aos brasileiros. Há dias, de madrugada, indagou-se na TV Globo – insuspeita de má vontade antigovernista – por que temos um Ministério do Desenvolvimento, que, até agora, não desenvolveu o Brasil em nada. Criticou-se, pois, o ‘‘politicamente correto’’ de FHC, princípio que o romancista e jornalista Norman Mailer chama de nova forma de totalitarismo, pois nega os valores inerentes à complexidade do espírito humano. ‘‘Todos os movimentos totalitários da história, diz ele, sempre começam assim.’’ O pensamento único, produto do neoliberalismo, é outra face do ‘‘politicamente correto’’. Mussolini, que também procurava uma via entre o socialismo e o liberalismo, criou um sistema totalitário. Conquistado o poder, pela subserviência parlamentar, ele se achou infalível e falíveis todos os opositores. Depois de anunciar um programa socialista avançado, virou direitista, sem mudar a linguagem esquerdista. Esqueceu as promessas pré-eleitorais, afirmando que o fascismo (como os neoliberais dizem hoje do neoliberalismo) era a ‘‘modernidade política’’. Condicionou multidões pela propaganda, promoveu fraudes eleitorais e abandonou de vez o socialismo, iludindo empresários, classe média e trabalhadores. A biografia de Mussolini, de Pierre Milza, recém-lançada pela Fayard, na França, é, aliás, obra notável contra as tentações do fascismo enrustido. Para os EUA, o Brasil, por seus problemas sociais, neste último Carnaval do milênio, é um dos países em transe na América Latina em termos de consolidação democrática. Mas reconheça-se: tal dificuldade resulta da submissão brasileira à utopia americana do livre mercado e do estado mínimo, algo ótimo para os EUA e péssimo para os países periféricos. O tratado de Versalhes também foi bom para os vencedores da 1ª Guerra (8,5 milhões de mortes). Depois, no entanto, eles lamentariam ter arrasado os vencidos, dando origem ao fascismo, causa de outra guerra que matou 60 milhões de pessoas. Hoje, no mundo pobre, o neoliberalismo, além de pessoas, mata a democracia ao liquidar-lhe as conquistas sociais. RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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