O salário mínimo no Brasil continua sendo o máximo. Porque este é um país onde ainda se cultua a pobreza, com o entendimento atávico de que o trabalho pesado não precisa ser bem pago, justamente por exigir menos escolaridade do trabalhador. Um salto de R$ 350 para R$ 380 não é nada, apenas ''30 cruzeirinhos'', como as pessoas ainda dizem, ou ''30 real'', na linguagem simplória de grandes contingentes pouco alfabetizados. É certo que o novo valor injetará na economia nacional uma expressiva soma mensal de dinheiro - e por consequência aumentará a arrecadação tributária - mas individualmente é pouco ou quase nada.
O salário mínimo já teve seu pico em 1957, não só em valor mas em poder aquisitivo, quando chegou ao que seriam hoje R$ 1.106,05, portanto duas vezes mais que o novo salário que entrou em vigor neste 1º de abril. Quando o SM foi criado pelo Governo Vargas, em 1940, correspondia a R$ 883,92 em valor de hoje. Era um excelente ganho, por isso foi consagrado como uma grande conquista do povo brasileiro, primeiro por estar sendo criado um salário referencial, sendo proibido pagar menos, e segundo porque era um nível elevado. Por isso Getúlio, apesar de ditador, passou à história como um estadista.
O Brasil dava um salto de qualidade, ao tempo em que também se criava a legislação trabalhista e se regulamentava o trabalho, que até então era de sol a sol, sem direito a descanso semanal remunerado, sem férias e outros direitos. (Verdade que essa lei viria a favorecer, anos mais tarde, a indústria da ação trabalhista e a engordar o sindicalismo aproveitador, e nunca seria alterada em função do aprofundamento de suas raízes nefastas). Se tetos altos do SM já foram alcançados um dia e as empresas públicas e privadas não faliram, então podem ser novamente adotados.
Naturalmente que o Governo deve contribuir com sua parte, que é baixar os encargos sobre a folha salarial e que correspondem ao dobro do ganho do empregado. Se necessita dos porcentuais para a conta da Previdência, o Governo surrupia do trabalhador esse quinhão, porque é um valor que poderia ser adicionado em boa parte ao salário. Estima-se que existam hoje em torno de 25 milhões de trabalhadores que ganham 1 SM, 22 milhões que ganham de 1 a 2 SMs e 28 milhões mais de 2 SMs. Em 1990, portanto 16 anos atrás, o salário mínimo afundou-se num baixo patamar e não mais se recuperou. Em relação ao pico de 1957, a perda do poder aquisitivo do mínimo foi de mais de 70%. Outras contas que têm o SM como referência caíram juntas. Isto explica a existência de mais de 40 milhões de cidadãos miseráveis e, por consequência, a queda da qualidade da saúde e da moradia, o aumento da criminalidade e a disseminação de todas as pragas sociais daí decorrentes. Quem hoje ganha 1 a 2 SMs é um excluído, porque não vive, mas apenas sobrevive.

mockup