Salário mínimo: entre a lei e a realidade econômica
A discrepância entre o salário mínimo e o custo real de vida evidencia um desafio estrutural que vai além da simples correção monetária
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terça-feira, 02 de dezembro de 2025
A discrepância entre o salário mínimo e o custo real de vida evidencia um desafio estrutural que vai além da simples correção monetária
Pedro Henrique Pontes 
Um recente dado do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), chamou atenção de qualquer cidadão atento, porque revela que para viver com dignidade no Brasil, o trabalhador precisaria receber pelo menos R$ 7.075,83. Por outro lado, o valor oficial do salário-mínimo está em R$ 1.518,00. A matemática é clara: para atender ao que a Constituição Federal de 1988, no artigo 7º, define como necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família, seria necessário um valor quase cinco vezes maior que o mínimo atual.
O descompasso entre o salário mínimo e a cesta de consumo de uma família urbana não é novidade, desde janeiro de 1994 que isso é observado, mas os números recentes evidenciam a dimensão do problema. O Dieese calcula mensalmente o valor necessário para cobrir alimentação, moradia, saúde, educação, transporte e outros itens que considera essenciais. Essa defasagem impacta diretamente nas escolhas das famílias, que muitas vezes precisam optar entre pagar o aluguel, comprar alimentos ou investir na educação dos filhos. E assim, o conforto, entendido como lazer, saúde de qualidade e segurança, torna-se restrito a poucos.
A justificativa oficial para reajustes tímidos está na contenção fiscal e na busca pelo equilíbrio das contas públicas. O cálculo do mínimo considera o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) e o PIB (Produto Interno Bruto), mas desde 2024 um teto de 2,5% para ganhos reais limita qualquer avanço significativo. O resultado é um salário que não acompanha o aumento do custo de vida, especialmente em períodos como o atual, de inflação elevada e encarecimento da cesta básica.
Além disso, os reajustes do salário mínimo têm efeitos que vão além do mercado de trabalho. Benefícios previdenciários, programas sociais e diversas categorias do funcionalismo público são indexados ao valor do mínimo. Essa vinculação transforma a política de reajuste em uma decisão que equilibra duas forças: a necessidade de preservar o poder de compra e a pressão por manter as contas públicas sob controle.
Dados preliminares do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE em outubro de 2025, reforçam a relevância do tema: 35,3% dos trabalhadores brasileiros recebiam até um salário mínimo em 2022. A faixa modal estava entre 1 e 2 salários mínimos (32,7%), enquanto apenas 7,6% tinham rendimentos superiores a cinco mínimos.
Esses números também ajudam a revelar um fenômeno mais recente: a migração de trabalhadores celetistas para o regime MEI. Inicialmente visto como vantajoso para ambos os lados, maior rendimento para trabalhadores e menor custo para empresas, esse movimento trouxe efeitos colaterais. A redução das contribuições previdenciárias não foi compensada pelo recolhimento do MEI, criando uma verdadeira bomba para o financiamento da Previdência Social. Mas esse é um tema que merece uma análise própria.
Em síntese, a discrepância entre o salário mínimo e o custo real de vida no Brasil evidencia um desafio estrutural que vai além da simples correção monetária. É urgente repensar estratégias que desvinculem os benefícios sociais e previdenciários do piso da remuneração dos trabalhadores. Pois, enquanto se insistir em tratá-los como iguais vigorará o pseudoparadoxo entre a garantia de condições dignas ao trabalhador sem o comprometimento da sustentabilidade fiscal. Com a separação, justiça social e responsabilidade econômica deixarão de ser rivais e até poderão se complementar.
Pedro Henrique Pontes é graduado em Ciências Econômicas, mestre em Economia e professor do Centro Universitário Internacional – Uninter


