Saindo do Inferno Rumo à Cidade de Deus
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de outubro de 2002
Feizi M. Milani 
Os dois anjos apareceram de súbito e, antes que eu pudesse correr ou chamar a polícia, arrebataram-me e levaram-me para outra dimensão, na qual eu seria capaz de enxergar a realidade do Mundo dos Humanos.
Mostraram-me que somos interligados por uma infinita e abrangente rede energética - cada um está profundamente conectado aos outros, e todos são interdependentes. Descobri que cada ação, reação ou omissão minha tem reflexos sobre o todo e que o todo repercute sobre mim. De sorte que tudo aquilo que faço aos outros, estou fazendo a mim mesmo. Constatei que não há isolamento entre as pessoas: somos todos células de um único corpo, o corpo da humanidade; o bem-estar de uma contribui para a vitalidade do todo, o sofrimento de uma afeta todas as demais e, a cura se processa na medida em que cada célula volta ao seu estado de equilíbrio e ajuda outras a fazerem o mesmo.
As revelações que os anjos me faziam, eu as vivenciava em meu corpo, mente e espírito, não restando espaço para dúvidas. Muitas das teorias, premissas, crenças e valores que hoje estão em moda, ruiam por terra. O mundo é totalmente diferente das miragens virtuais que nos são impingidas como se fossem ''a vida real''. Os anjos me ensinaram ''não há salvação individual: vamos todos juntos para o Paraíso ou para o Inferno. A responsabilidade é coletiva. Entretanto, a escolha de abraçar essa responsabilidade é pessoal e intransferível.''
Senti-me como o personagem do filme Matrix, quando descobre que o ''mundo'' tal como lhe havia sido apresentado era apenas um conjunto de ilusões projetadas pelo sistema, na mente das pessoas. Só que desse vez, eu estava assistindo a Cidade de Deus e caindo na realidade nua e crua da sociedade brasileira.
Os anjos eram, nesta dimensão da realidade, Paulo Lins e Fernando Meirelles, respectivamente autor do livro e diretor do filme Cidade de Deus. O arrebatamento era o choque das imagens e histórias nele expostas. Antes que você possa se levantar da poltrona, a película já terá lhe ensinado que não existe ''nós'' e ''eles'' como realidades desconectadas. Só que eu senti a lição como um soco na boca do estômago - como fomos capazes de abandonar nossas crianças, adolescentes, famílias e comunidades a tal ponto que células sadias se degenerassem? Qualquer célula, por mais sadia que tenha nascido, pode degringolar se não tiver suas necessidades essenciais supridas, se não receber limites justos para crescer em segurança, se não aprender a reconhecer o valor sagrado das demais células.
A verdade é que todos já sabíamos essa lição. Mesmo assim, insistimos em acreditar que se algumas pessoas ou grupos fossem marginalizados e oprimidos (o ''eles''), mal nenhum haveria de atingir as ''pessoas de bem'' (o ''nós''). Por esse motivo somos - cada um e todos - responsáveis pelas tragédias que se repetem ao longo das três décadas retratadas no filme e, pior ainda, no cotidiano de milhões de brasileiros. Você e eu somos co-responsáveis pelas vidas desviadas de seu curso natural, deturpadas em seu propósito, destruídas em mortes injustas. Sim, somos cúmplices. Quer seja por nossas ações, omissões ou reações, cada um de nós é partícipe da sociedade que escolheu excluir da cidadania, das oportunidades, da educação, do emprego e até da vida, milhares de suas células.
Fico me questionando como devem estar se sentindo aqueles com o mais elevado grau de responsabilidade pela criação e manutenção das condições que favoreceram ao máximo a eclosão dessa enfermidade social. Refiro-me aos poderosos deste País - políticos, elites, ricos, famosos, lideranças e outros que, nessas horas, preferem a discrição aos holofotes. Como será que se sentem essas pessoas ao assistirem ou lerem Cidade de Deus? Será que percebem o seu próprio papel naquela trama? Afinal, eles são os protagonistas. Tudo bem que permanecem na invisibilidade, mas nem por isso deixam de estar entre os personagens principais. Ou será que continuam a pensar o mundo como dividido entre ''nós'' e ''eles'' - e, consequentemente, se o problema não ''nos'' atinge, se afeta somente aos ''outros'', não há com o que se incomodar?
O filme nos conduz até o inferno para mostrar que na Cidade de Deus, ou melhor, neste mundão de Deus, não existe ''nós'' e ''eles''. Há apenas a humanidade, una e indivisível. O que afetar a parte, afetará o todo. Já que as estatísticas de homicídios e o cotidiano de violência não foram suficientes para nos despertar da omissão e silêncio, Paulo e Fernando vêm soar sua trombeta angelical. Talvez assim descubramos que o inferno pode até tornar-se um caminho que conduz ao Paraíso, se escolhermos construir uma sociedade baseada na unidade orgânica de suas células, na justiça, cooperação e solidariedade.
FEIZI M. MILANI é presidente do Inpaz, Instituto Nacional de Educação para a Paz e os Direitos Humanos


