Safra recorde é gol contra o produtor
De posse de projeções sujeitas a revisão, os políticos que estão no governo estufam o peito, fazem pose e, com ar de presunçosa competência, anunciam mais uma safra recorde. Até parece que são eles os responsáveis por tudo de bom: da semeadura até a colheita, passando pelas condições do clima. Analisando assim, facilmente, a safra brasileira de grãos deve totalizar 145,8 milhões de toneladas, com crescimento de 8,8% sobre os 134 milhões de t colhidos em 2009 e 1% menor que a safra recorde de 2008, de 145,9 milhões de t.
Mas os dados não passam de estimtiva (otimista). Para serem confirmados terão de enfrentar chuvas e trovodas, além de outras adversidades que podem ocorrer antes da colheita, como a seca. Fator imponderado, que escapa do controle do homem e da tecnologia disponível, só ele, o clima, poderá dizer se vamos colher tudo isso. Portanto, comemorar bons frutos agora é precipitado e tem algumas consequências que prejudicam o agricultor. Mediante aumento da produção e consequente oferta de matéria-prima, a indústria tende a pagar menos pelo grão.
Na lógica do mercado, os que saem por aí alardeando abundância de omeletes antes de a galinha botar o ovo, tendem a provocar duplo prejuízo à ponta da produção, principal elo da cadeia agronegócio. Em primeiro lugar, derrubam os preços a serem pagos ao produtor pela sua mercadoria (lei da oferta e procura). Em segundo, estimulam aumento dos fatores de produção, como os insumos, principalmente sementes. Portanto, a produção é duplamente penalizada: pelo excesso de oferta que derruba os preços e pela alta dos insumos e equipamentos na esteira da conversa de que o produtor está ganhando muito.
Os institutos de pesquisas deveriam ser mais isentos. Deveriam parar de armar palanques de otimismos para candidatos. Aliás, a previsão fantástica da safra, junta-se a outras projeções otimistas. A exemplo do que aconteceu antes da última campanha, a da reeleição, também agora, os dados otimistas saem em profusão e alimentam a mídia quase toda oficial. Todos os dias há um indicador novo apontando que o Brasil nunca esteve tão feliz.





