Saddam dá lição de estratégia aos EUA - Ralph Peters
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de dezembro de 1998
Ralph Peters 
Apropriando-se indevidamente das próprias teorias do Departamento de Defesa dos EUA sobre guerra moderna, o Iraque superou o governo americano em esperteza. Mas a crise não passou. O ataque militar contra o Iraque, cancelado na última hora, pode dizer mais sobre o futuro da guerra do que qualquer combate ocorrido na última década.
No Pentágono atual, onde frases feitas substituem as idéias, as expressões hoje em voga incluem guerra assimétrica e guerra da informação. Muito discutidas, elas nunca foram muito bem definidas ou testadas. Até agora, o presidente Saddam Hussein, adversário de pouca tecnologia e mentalidade medieval, usou os dois conceitos para neutralizar os militares dos EUA, que gastam um quarto de trilhão de dólares por ano. Os EUA ainda podem ser forçados a atacar se o Iraque não reiniciar cooperação plena com os inspetores da ONU que inclui a entrega de documentos por eles exigidos. Mas ao menos até agora Saddam vence o Pentágono no próprio jogo deste.
Comecemos pela guerra assimétrica. Em resumo, é quando um inimigo mais fraco consegue derrotar o mais forte ao adotar uma estratégia inovadora e de acordo com suas posses. Pode-se fazê-lo desenvolvendo uma arma inesperada ou tornando inútil a superioridade do inimigo. Quando testaram a tese da assimetria em guerra simulada, os militares americanos partiram do pressuposto de que os EUA sofreriam sofisticados ataques eletrônicos dos hackers (invasores de redes) à sua infra-estrutura nacional. Foi o clássico caso da imagem refletida: o Pentágono convenceu-se de que os inimigos dos EUA fariam o que os americanos fariam em seu lugar.
O enfoque de Saddam foi mais incisivo. Reconhecendo o esmagador poderio ofensivo dos EUA e sua capacidade de atacar qualquer alvo, Saddam transferiu os alvos para áreas povoadas. Sabia que o presidente Bill Clinton não só temia pôr em risco a vida de seus próprios militares como também receava terrivelmente as repercussões negativas que a morte de civis iraquianos traria. O líder do Iraque estava com a razão: quando Saddam pareceu fazer um gesto conciliador, o presidente Clinton aproveitou-o como desculpa para cancelar um ataque que já estava no ar e assim evitar reação mundial aos 10 mil iraquianos que morreriam, segundo previsões do Pentágono.
Essa fraqueza intrínseca das armas mais inteligentes e todos os mitos sobre ataques de precisão e guerra sem sangue foram prontamente desmascarados. Saddam avaliou Clinton mais claramente do que Clinton avaliou Saddam. E outra mobilização, superior a US$ 1 bilhão, emperrou. Por estranha ironia, foi Saddam, não os EUA, quem teve a primeira vitória militar sem sangue de nossa época.
A guerra da informação, o segundo brinquedinho do Pentágono, foi usada como desculpa para gastar bilhões de dólares em tecnologia digital. No planejamento de sua estratégia, os EUA mais uma vez adotaram visão estreita. Planejadores militares supuseram que esta nova forma de guerra se basearia no duelo de redes de computação e em tecnologias sofisticadas. O vitorioso controlaria as faculdades de percepção do adversário por meio do domínio da informação outra frase muito em voga no Pentágono. Era uma visão frágil da guerra, mais convincente para as empreiteiras do Departamento de Defesa do que para os inimigos dos EUA.
Saddam, ao contrário, travou uma guerra da informação antiga e de baixa tecnologia contra os EUA. Numa campanha brilhante (embora grosseira) de sete anos, Saddam conseguiu que parte das atenções concentradas nele próprio fossem desviadas para os males causados ao povo iraquiano pelas sanções da ONU ditadas pelos EUA. Os fatos eram irrelevantes, a imagem e a repetição do argumento eram tudo. O mundo assistiu com frequência a trechos de vídeo em que crianças iraquianas passavam fome, em que hospitais de Bagdá não tinham medicamentos e em que iraquianos eram forçados a vender seus últimos bens para sobreviver.
O governo Clinton e os militares americanos deram de ombros a tudo isso, julgando que era propaganda nada convincente. Mas grande parte do mundo está perfeitamente disposta a acreditar no pior a respeito dos EUA, embora um número incontável de indivíduos anseie pelas liberdades e prazeres dos EUA. Finalmente, a eficácia da propaganda iraquiana chegou até à Casa Branca. Sem o perceber, até o presidente sucumbiu àquelas imagens de iraquianos sofredores quando cancelou o ataque americano. A nação mais aberta do mundo, com sua sociedade e economia movidas pela informação, simplesmente saiu perdendo na campanha estratégica de uma sociedade que não entende de computação e restringe drasticamente a veiculação de dados.
Isto é sério. As estratégias do Iraque teriam emperrado se Clinton demonstrasse força de vontade e se os militares desfechassem um ataque decidido. Mas o presidente não teve força de vontade e os militares deixaram passar a chance. Perguntem a um general ou almirante, que ele dirá: Nós teríamos chutado seus traseiros. O general norte-vietnamita Vo Nguyen Giap, vencedor de outro conflito assimétrico, comentou sobre o poderio militar americano: Isto é irrelevante.
O Iraque acaba de ensinar ao mundo como frear as forças armadas mais poderosas de todos os tempos: instale seus bens vulneráveis nas cidades, transmita a imagem da miséria de seu povo e convença os líderes dos EUA de que a derrota política será o preço a pagar pela vitória militar. É uma engenhosa variação da antiga ameaça de a gente se dar um tiro caso não deixem que a gente consiga o que quer.
Haverá no futuro incontáveis versões desta estratégia, mas todas se concentrarão em evitar o poderio bélico dos EUA em vez de enfrentá-lo. Os melhores militares do mundo são inúteis se os EUA não puderem ou não quiserem usá-los.
Os EUA ainda podem ser forçados pelas circunstâncias a atacar o Iraque. Mas as lições da recente falta de coragem dos EUA não passarão despercebidas por futuros adversários que não têm a riqueza deste País mas possuem força de vontade para lutar com meios não-convencionais.
- RALPH PETERS é oficial da reserva do Exército dos EUA e autor de livros


