Comunicar alguém de algo ou comunicar-se com alguém? Qual das alternativas é mais comum no seu local de trabalho? ''O grande problema da comunicação nas corporações é que se demora muito mais informando do que dialogando. E quando não há espaço para o diálogo, o trabalho não acontece da melhor maneira.'' A análise é da educadora Nadia Aparecida de Souza.
Formada em direito e pedagogia, com mestrado e doutorado em educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Marília (SP), ela defende que a postura das pessoas na comunicação está relacionada à percepção que se tem de si mesmo. ''É preciso se perceber melhor, e progressivamente resolver os problemas para que haja diálogo'', recomenda.
A professora acrescenta que é muito importante aprender a ouvir o outro, não apenas registrando e decodificando o que é dito, mas também tentando compreender quem diz, levando-se em conta que cada ser é único por tudo o que viveu e como lidou com suas experiências. ''Não é fácil, e ninguém faz isso o tempo todo. Mas se começarmos a ouvir quem diz, todo o nosso processo de comunicação vai ser melhor, com certeza'', assegura.
Como devemos nos comunicar no ambiente de trabalho?
Caindo um pouco no chavão, temos que dizer para o outro o que somos capazes de ouvir. Geralmente as pessoas são indelicadas, elevam o tom de voz, usam palavras que machucam. A comunicação não deveria priorizar a falha, o problema, trazendo à tona o que não foi feito, mas buscar reconhecer o trabalho bem feito, utilizar palavras de estímulo e de respeito, como obrigado, por favor, com licença. Também é importante valorizar todas as pessoas, independentemente da função que ocupam na empresa. Todos merecem ser ouvidos e precisam ser respeitados tanto no que vão dizer quanto no que vão ouvir.
O que acontece quando não há uma boa comunicação dentro da empresa?
Quando a boa comunicação não acontece, conflitos vão existir. Quando a pessoa é agressiva e desrespeitosa ou não valoriza o outro, por maior que seja o salário e por melhores que sejam as condições de trabalho, a insatisfação cresce dentro das pessoas. Torna-se um ambiente difícil. O funcionário pode não dizer nada, mas no rendimento do trabalho, na forma de atendimento ao outro, o descontentamento acaba sendo exteriorizado. A pessoa tem que se sentir valorizada, sentir que pode crescer na empresa, e isso passa por aquilo que se diz e o tratamento que se recebe.
É possível identificar as falhas na comunicação?
De modo geral, as pessoas sozinhas não percebem. Mas se a pessoa parar um pouco para perceber o ambiente no qual está inserida pode enxergar alguns pontos: se as pessoas não podem falar de problemas, fazer perguntas após uma instrução sua, não discordam de você, se suas decisões desconsideram o pensamento de todas as outras - estes são alguns indicadores claros de que a comunicação não existe enquanto processo que envolve mais de uma pessoa.
Também pode-se parar para olhar a expressão das pessoas em volta, se mudam quando você entra na sala, e as pessoas começam a falar em voz baixa, com certeza alguma coisa está equivocada. Se seu tom de voz vive alguns decibéis acima do normal, com certeza a comunicação é problemática.
E nesse caso, como mudar?
Eu brinco que não adianta enxergar muito defeito de uma vez só. Tem que se corrigir pensando em um problema de cada vez. Por exemplo, se você tem mania de interromper as pessoas enquanto elas estão contando uma história, ou de terminar a frase do outro, qual deve ser a ação? Se policiar. Fique um dia, uma semana, dez, quinze dias se policiando para não interromper o outro, deixando a pessoas falar mesmo que você já saiba o desfecho. Depois desse tempo, você terá desenvolvido o hábito de aprender a ouvir com educação e respeito o que o outro tem a dizer. Daí, selecione outro problema e insista.
Em alguns casos a pessoa vai precisar de ajuda, de um alerta sutil, mas o importante é ir percebendo-se e não achar que vai mudar tudo de uma vez. Avançando sempre um pouquinho a cada dia, gradativamente, o seu processo de comunicação vai melhorar.
Por outro lado, quando se dá muita voz para o outro, não há o risco de se perder a autoridade?
Eu distingo autoridade de autoritarismo. Ter autoridade é manter uma relação respeitosa, pautada na confiança em si e no outro. Significa tomar decisões junto com o seu grupo, ouvindo-o e arcando com as consequências dessas decisões, principalmente quando o resultado não for tão bom. Já autoritarismo é mandar, abusar de um poder, porque se é inseguro e imaturo no exercício desse poder. Quando não se tem confiança em si mesmo, se valer desse poder para submeter o outro. Dialogar, estabelecer um contato, permitir que surjam possibilidades de mudança não é perder autoridade. Perder a autoridade é não assumir a responsabilidade pelas decisões.
Como o funcionários deve lidar com um chefe autoritário?
Só há dois caminhos. O primeiro é ter bom-senso no sentido de fazer o que é necessário para se manter no emprego. Muitas vezes se depende desse trabalho, e é preciso se submeter para não se deixar levar pela situação e responder no mesmo tom. O outro caminho é tentar, devagarzinho, incluir alguma pequena sugestão, tomando iniciativas, para progressivamente conquistar um espaço maior. É difícil lidar com um chefe autoritário, demanda um cuidado muito grande, mas precisamos nos adaptar enquanto for necessário.
E como saber até quando devemos nos adaptar? Qual é o limite?
Em um ambiente em que a comunicação não acontece, a pessoa permanece no emprego enquanto é obrigada, porque assim que percebe uma possibilidade de mudança ela vai sair. É claro que tem aqueles que ainda ficam, são os que por algum motivo a vida já os anulou tanto que eles não se sentem capazes de mudar alguma coisa. Aceitam porque não conseguem ver outra perspectiva. Mas geralmente a pessoa vai buscar emprego em um lugar que a respeite mais como pessoa e como profissional que tem algo a oferecer.


Tom de voz acima do normal indica comunicação problemática


Dialogar e permitir possibilidades de mudança não é perder autoridade

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