Ruy M. Altenfender Silva
O vaticínio
do poeta
‘‘Última flor do Lácio, inculta e bela, és, a um tempo, esplendor e sepultura’’. Poucos são os versos da poesia mundial que, como este com que Olavo Bilac inicia ‘‘Língua Portuguesa’’ tiveram tamanho caráter profético. Sem a postura alarmista de considerar o idioma em estado de coma, é preciso, porém, ficar alerta, pois há elementos letais que conspiram contra sua saúde. A começar pela má qualidade do ensino, um desafio a ser vencido pela Nação, que leva milhares de brasileiros a maltratar impiedosamente o Português.
Outro fator, contudo, merece uma reflexão mais aprofundada dos que propugnam pela cultura, o ensino e o conhecimento. Trata-se da exagerada invasão de neologismos, estrangeiros e deformações gramaticais, que desembarcam abruptamente no idioma, especialmente no ambiente empresarial, suscitados pela globalização, a informática e as transformações fulminantes da história.
Esse exército alienígena de expressões desconexas vai ganhando posições estratégicas na estrutura da Língua Portuguesa, ameaçando a sua identidade. Nem mesmo os regionalismos advindos do processo de colonização, da imigração e da rica heterogeneidade cultural deste gigantesco país provocaram tal descaracterização.
Aliás, o idioma é um dos elementos que mais contribuem para conferir unidade e harmonia à cultura nacional, constituindo-se na congruência formal de todos os matizes que a compõem. Não se trata, absolutamente, de um excesso de purismo ou de ignorar o processo natural de evolução de um idioma. Há que se considerar, contudo, que a utilização de neologismos e a metamorfose gramática e/ou semântica das palavras devem obedecer a critérios mínimos de lógica, quando efetivamente tornam-se fundamentais para a identificação de algo novo.
O substantivo masculino acesso, por exemplo, deu origem ao verbo acessar, que não existia em Português, conforme se pode verificar em edições, inclusive recentes, de bons dicionários. Essa derivação da sintaxe, que surgiu com a disseminação da informática, tem um sentido lógico e não fere a raiz semântica da língua. No entanto, há exageros, especialmente porque criados em substituição a expressões já existentes.
É o caso do neologismo adequacidade , que sorrateiramente começa a aparecer em alguns textos, como definição de capacidade da adequação. Isso, sem falar em frases mescladas por tamanha infinidades de palavras inglesas, a ponto de tornar quase impossível ao interlocutor ou leitor identificar qual o idioma que, de fato, está sendo utilizado.
Exemplo recente ocorreu em reunião do Conselho de Administração das Empresas de Energia do Estado de São Paulo. Um dos gerentes, ao discorrer sobre projeto econômico-administrativo-financeiro, utilizou dezenas de expressões importadas. A competência da exposição não poupou o orador de um comentário do conselheiro José Luiz de Anhaia Mello, que recomendou: ‘‘É preciso iniciar ação para que não se use indiscriminadamente terminologias importadas, já que a Língua Portuguesa, uma das mais ricas do mundo, dispõe de expressões claras para definir quaisquer conceitos’’.
Todo esse processo contamina rapidamente muitos profissionais responsáveis pela comunicação social nas empresas, cujo trabalho atinge vasto público. Afinal, eles não são imunes aos fenômenos da cultura de massa que se manifestam no chamado inconsciente coletivo. Cabe a esses profissionais, contudo - pela responsabilidade que têm, não só de formar opinião e manejar uma ferramenta estratégica das organizações, mas também de contribuir para o aprimoramento cultural e intelectual da Nação - um exercício de reflexão e mais cautela, que lhes permitam incluir-se entre os guardiões desta magnífica ‘‘flor do Lácio’’.
A comunicação social brasileira vive num momento importante e de nítida evolução, equiparando-se às melhores do mundo. Por isso mesmo, deve primar pela preservação do idioma, evitando que ele naufrague em suas incursões pelos ‘‘mares nunca d’antes navegados’’ da globalização. Globalização? Esta palavra acaba de ser rejeitada pelo ‘‘Aurélio’’ eletrônico instalado em meu micro, que denuncia: ‘‘Verbete inexistente...’
- RUY MARTINS ALTENFELDER SILVA é advogado e presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje)

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