Ruy Fabiano/Brasília
O processo político é, desde sempre, um jogo de entretons e ambiguidade. Getúlio Vargas gabava-se de não possuir inimigos que não pudesse transformar em amigos - e vice-versa.
Provou isso numerosas vezes. Em 45, por exemplo, mandou tirar da prisão o líder comunista Luiz Carlos Prestes, para selar uma aliança política em torno de sua continuidade (dele, Getúlio) no poder.
Prestes havia sido trancafiado por Vargas dez anos antes, em condições subumanas, que fizeram com que seu advogado, Sobral Pinto, invocasse em sua defesa nada menos que a lei de proteção aos animais. Vargas deportara também para a Alemanha nazista a mulher de Prestes, Olga Benário, grávida, sabendo que, como judia, não teria chances de sobreviver. Morreu num campo de concentração. Detalhes.
Prestes saiu da prisão para o palanque, engajado na campanha que ficou conhecida por Queremismo, que consistia em defender a convocação de uma Constituição com Getúlio. A campanha fracassou, o que é outra história. Mas Prestes e Getúlio continuaram aliados até o fim. A isso, sem maiores concessões a sentimentos pequeno-burgueses como a emoção, chamou-se de molejo dialético, pragmatismo responsável e coisas do gênero. Em política tudo é possível, repetem os políticos, e selam as mais surpreendentes alianças.
Paulo Maluf, do PPB, dentro dessa tradição, aliou-se simultaneamente ao PT e ao senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), velhos inimigos figadais. Apesar da histórica desavença com o PT, revivida em todo o esplendor na recente eleição municipal, Maluf dispõe-se a integrar uma frente com Lula contra a reeleição de Fernando Henrique.
Paralelamente, apóia a candidatura de Antonio Carlos Magalhães à presidência do Senado e declara sem o mais remoto constrangimento: Somos irmãos gêmeos na política. Interessante notar que foi exatamente ACM quem, em 1974, no auge da disputa entre Maluf e Tancredo Neves pela Presidência, detonou a derrota do hoje prefeito de São Paulo.
Disse na ocasião mais ou menos o seguinte: Não apóio candidatos corruptos. Maluf entrou na Justiça contra ACM, mas nada conseguiu. E foi por ele chamado de corrupto numerosas outras vezes. De tal modo aquela acusação pesou na derrota de Maluf naquelas eleições presidenciais que ACM tornou-se, por algum tempo, uma espécie de herói das esquerdas, chamado carinhosamente de Toninho Ternura, em oposição ao epíteto que o acompanhava, havia anos, de Toninho Malvadeza.
Águas passadas. O que está em jogo é a luta pelo poder. Tanto ACM como Maluf municiam-se de cacife para garantir lugar de destaque no futuro. ACM quer a presidência do Senado, que já esteve mais próxima; Maluf a presidência da República ou o governo paulista. O PT cumpre papel de oposição: investe nas contradições da base governista, ainda que por meio de alianças contraditórias. Tudo muito simples, claro.





