O governo Fernando Henrique é lento e inábil na reação às catástrofes. Somente agora, duas semanas depois de intenso noticiário sobre a seca do Nordeste, em que o Estado é o grande vilão, acusado de omisso e negligente, o presidente decidiu fazer-se presente in loco.
De qualquer forma, já é um progresso. Ao tempo da tragédia dos pacientes de hemodiálise em Caruaru, por exemplo, não apenas não foi, como não mandou ninguém representá-lo. Acompanhou tudo à distância, como espectador. Idem com relação à recente tragédia ecológica de Roraima, de (péssima) repercussão mundial, que acabou resolvida à sua revelia, numa caricata mistura de acaso e pajelança.
Com a seca no Nordeste, o desgaste tornou-se mais problemático, pois o vazio foi ocupado por críticas indignadas, partidas de gente séria e de adversários oportunistas.
Se, no primeiro momento, o presidente se mostrasse presente, teria reduzido o impacto das denúncias de representantes da Igreja, de movimentos sociais, dos partidos de oposição e do Judiciário.
O falecido Zezinho Bonifácio, célebre raposa política formada pelo antigo PSD, aconselhava aos políticos que jamais brigassem com ‘‘povo que usa saia’’. Referia-se não apenas a mulheres, mas (e sobretudo) a padres (que naquele tempo usavam batina) e juízes.
O presidente Fernando Henrique, ao que parece, não crê muito na consistência dessa lição. Abriu polêmica simultânea com bispos e juízes, em função dos saques empreendidos por flagelados. Primeiro, criticou o bispo da Paraíba que havia considerado legítimo e plenamente respaldado pela doutrina cristã o roubo de alimentos por parte de quem está com fome. A seguir, indispôs-se com o ministro Sepúlveda Pertence, do STF, que endossou as palavras do clérigo.
O presidente está certo quando se preocupa com declarações que legitimam os saques. É claro que constituem perigoso precedente, que pode servir de pretexto para ações similares em todo o País, sob o comando de grupos radicais e agitadores.
Imagine-se, por exemplo, o caos que provocariam invasões a supermercados nos grandes centros urbanos, por parte de favelados. Em que diferem, do ponto de vista da legitimidade sustentada por religiosos e magistrados, das invasões dos flagelados da seca aos armazéns dos pequenos municípios? O argumento da fome aplica-se a qualquer geografia. Não há dúvida, pois, de que os temores do presidente são procedentes e merecem reflexão por parte de seus críticos.
A questão, porém, é que o próprio governo, com a demora em agir, acabou dando cabimento e justificativa àquelas atitudes. O bispo da Paraíba disse que, não fossem os saques, o governo não prestaria atenção à seca. Não parece haver dúvida quanto a isso.
Politicamente, a discussão não favorece o presidente, que vê, às vésperas do início da campanha eleitoral, acentuada a crítica de seus adversários de que é pouco sensível às demandas sociais.

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