Ruy Fabiano
No final das contas, pode não ter sido mau negócio para o futuro eleitoral das esquerdas o rompimento da aliança Lula-Brizola. O próprio Brizola, que concebeu a aliança ao oferecer-se para vice de Lula, mostrou, na sequência, arrependimento.
Bem antes de o PT fluminense manifestar-se, ele já vinha questionando a eficácia da dobradinha. Em termos concretos, segundo indicações de pesquisas, a união de Brizola e Lula acrescenta pouco ao patrimônio eleitoral de cada um - e aumenta enormemente a rejeição de ambos. É como se apenas este item se somasse: o da rejeição.
Disputando separadamente, é possível que produzam mais votos e acabem forçando a realização de um segundo turno, quando então a união seria imperativa. É essa a convicção que, neste momento, move Brizola.
Ele não encerrou formalmente as conversações com o PT, mas deixa claro que não crê em reversão das expectativas. Tudo o que dependa de mudanças no PT fluminense é visto com reservas por ele.
De fato, não será a intervenção do diretório nacional do PT - tecnicamente viável, mas politicamente perigosa - que fará com que o deputado Milton Temer (PT-RJ) e Vladimir Palmeira passem a simpatizar com a candidatura do brizolista Anthony Garotinho ao governo do Estado do Rio. O desgaste entre os dois partidos é antigo e não se supera com ações intervencionistas.
A aliança pode até ser formalizada, mas já nascerá comprometida. Brizola tentou essa parceria antes, sem sucesso. Em 1989, apoiou Lula no segundo turno contra Fernando Collor, na certeza de que o PT apoiaria o PDT nas eleições de governador, no ano seguinte.
Tal, porém, não ocorreu - e ambos perderam as eleições, vencidas pelo PMDB. Desde então, brizolismo e petismo, no Estado do Rio, tornaram-se adversários, impondo derrotas eleitorais para ambos. O gesto de Brizola de oferecer-se para vice de Lula teve como meta reverter o quadro fluminense. No Rio Grande do Sul, a outra grande fortaleza do brizolismo, foi possível uma composição. No Rio, não.
Em função disso, comprometeu-se não apenas a aliança federal, mas também a gaúcha. Em cada uma dessas instâncias, PT e PDT devem marchar separados. No Rio Grande do Sul, o governador Antonio Britto, do PMDB, candidato à reeleição, agradece comovido. No Rio, idem o governador Marcello Alencar, do PSDB, e o ex-prefeito César Maia, do PFL. No plano federal, porém, Fernando Henrique não comemora nada.
Sabe que o enfraquecimento de Lula pode ensejar o surgimento de outro nome, menos estigmatizado, que possa produzir alianças mais amplas e competitivas. Ciro Gomes, por exemplo. Ninguém torce mais pelo restabelecimento da aliança PT-PDT que Fernando Henrique. Lula é o adversário ideal, segundo seus estrategistas, que o consideram o candidato com melhor perfil para ser derrotado no primeiro turno.





