A hipótese de intervenção do diretório nacional do PT sobre a seção fluminense do partido, para retirar a candidatura de Vladimir Palmeira ao governo do Estado e restabelecer a aliança nacional com o PDT, é tecnicamente viável, mas politicamente perigosa.
Antes de mais nada, seria um ato de violência, na medida em que a decisão do diretório estadual, ainda que burra, foi legítima e democrática. A maioria votou, com a maior transparência, rigorosamente dentro das regras do jogo, estabelecendo sua vontade soberana.
Mudar essa decisão de cima para baixo - isto é, via diretório nacional, no próximo encontro do partido, em junho, como está sendo aventado - não engajará as bases estaduais na candidatura do PDT e, de quebra, aprofundará o ambiente de divisão, o que seria desatroso para a candidatura presidencial do partido.
O gesto do PT fluminense, a rigor, não constitui surpresa. O PT está longe de ser um partido coeso ou homogêneo. É um saco de gatos tão diversificado como o PMDB - só que sua diversidade acontece à esquerda. Há facções moderadas, mais próximas da social-democracia, em que poderiam enquadrar-se nomes como Lula, José Dirceu, o governador Cristovam Buarque e a maioria da bancada parlamentar federal.
Há facções radicais, os xiitas, que descrêem dos métodos democráticos para chegar ao poder. Essas facções estão infiltradas em organizações como o Movimento dos Sem-Terra e são frequentemente acusadas pelo governo de incitadoras de invasões e atos de violência.
Há outra, intermédia, que sustenta o discurso democrático, mas despreza a política de aliança e insiste num discurso mais radical. Dela, fazem parte o deputado Milton Temer, que desafiou recentemente (perdeu por pouco) a reeleição de José Dirceu à presidência do partido, e Vladimir Palmeira, que acaba de melar a coligação nacional com o PDT. Eles não admitem a hipótese de um reexame da situação.
Se houver intervenção, o partido racha e sai para a eleição presidencial com uma perna só. Lula, antevendo isso, está estabelecendo uma condição para manter-se candidato: ou sua candidatura passa a ser a das oposições, ou ele cai fora.
Se o conjunto dos partidos de esquerda - PT, PSB, PDT, PC do B - assumir sua candidatura, a questão fluminense torna-se secundária. Só que isso é mais difícil ainda que fazer com que Vladimir Palmeira e Brizola se entendam.
Brizola, por sua vez, não crê mais em nenhuma solução que parta da hipótese de reacomodação de forças no PT fluminense. Por isso, lançou-se candidato à presidência antes mesmo que os demais partidos de oposição chegassem a qualquer conclusão a respeito do nó cego que aí está. Aparentemente, união só no segundo turno - se, claro, houver segundo turno.

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