Em política, vigora desde sempre o princípio de que ninguém, por mais talentoso e influente, é insubstituível. Não ha vácuo em poder. Nenhum espaço fica desocupado, não importa o contraste entre quem sai e quem entra. Mudam os personagens, segue a vida.
Nesses termos, as perdas sucessivas de Sérgio Motta e Luis Eduardo Magalhães, por maiores que sejam - e não há dúvida de que são consideráveis - não alteram o cronograma político traçado por Fernando Henrique até o final deste ano.
O presidente quer concluir a reforma da Previdência e deixar aprovada a emenda que convoca uma Constituinte restrita para o próximo ano - a emenda Miro Teixeira, com pequenos ajustes que incluam a reforma do Judiciário. O mais é a campanha eleitoral, cujos desdobramentos se mostram cada vez mais problemáticos.
Sérgio Motta e Luis Eduardo eram as figuras centrais dos dois principais partidos da base governista - PSDB e PFL. O presidente os tinha como aliados fundamentais para traçar a estratégia da reeleição - e não há dúvida de que ambos teriam assento assegurado na mais restrita roda de colaboradores do comitê da reeleição.
Serjão era o amigo íntimo, que entrava sem se fazer anunciar e se dava ao luxo de chamar a atenção do presidente quando bem entendesse. Não era um áulico; era um coadjuvante do poder, uma espécie de alter ego presidencial.
Luis Eduardo era a liderança jovem e eficiente, que o presidente acionava em situações delicadas, na certeza de que haveria empenho no atendimento. Pilotava uma área vital, o PFL, com a qual o presidente tem pouca intimidade e consideráveis demandas.
Luis Eduardo diversas vezes apagou incêndios na retaguarda partidária - inclusive junto a seu pai, o senador Antônio Carlos Magalhães - e era peça de fundamental importância para o governo no Congresso. Não se substituem personagens assim da noite para o dia.
Para o PFL, Luis Eduardo personificava a perspectiva de poder. Era o seu candidato à sucessão de 2002, numa provável disputa com o atual ministro da Saúde, José Serra, do PSDB. Tudo, claro, partindo do pressuposto de que a reeleição já estaria assegurada.
Em política, porém, não se pode deixar de levar em conta o imponderável, que, inclusive, se apresenta mais como regra que como exceção. Não fosse o imponderável, José Sarney e Itamar Franco, para ficar apenas em dois exemplos, não teriam jamais governado o país.
O próprio Fernando Henrique, gerado no ventre do inesperado governo Itamar, não estaria onde está. As duas perdas, traumáticas e inesperadas, semeiam incertezas quanto ao futuro do projeto político do governo, incluindo aí a idéia de vitória eleitoral antecipada. Se a reeleição já não estava fácil antes, agora é que complicou mesmo.

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