Sérgio Motta pensava em voz alta, o que, em política, quase sempre, é considerado defeito, grave defeito. No seu caso, no entanto, servia para manter o referencial ético, que o presidente Fernando Henrique, imerso nas práticas pragmáticas da gerência de sua base parlamentar, diz que não perdeu de vista.
A tal ética da ambiguidade, em que pecados são admitidos em nome de uma meta positiva, não combinava com o perfil do ministro, que se opôs à política de filiações em massa ao PSDB, sob o argumento, indiscutível, de que descaracterizaria o partido.
O partido, de fato, se descaracterizou. E o ministro, não obstante o posicionamento crítico inicial, acabaria por consenti-lo, em nome de algo maior: o projeto de permanecer ‘‘no mínimo’’ vinte anos no poder. Aí ao menos não escapou da ética da ambiguidade, tão cara a seu primeiro amigo. Posteriormente, arrependeu-se e lamentou que o PSDB tenha se tornado um ‘‘partido-ônibus’’, como dizia.
Motta não fez carreira política. Sua militância foi apartidária, restrita aos tempos iniciais de contestação ao regime militar. Seu perfil era de executivo, daqueles workaholic, cuja obstinação faz com que centralize tudo a seu redor. Motta tornou-se mais que um referencial, a mola propulsora da administração Fernando Henrique.
Sua força centrífuga era tal que, mesmo não sendo político e mesmo tendo o ‘‘defeito’’ de pensar em voz alta, acabaria por tornar-se também uma espécie de articulador do governo. Não precisou para isso ocupar uma pasta extraordinária, como o fez (sem articular nada) o deputado Luís Carlos Santos. Ao telefone, pilotava o Congresso em dias nervosos e decisivos. Com eficiência.
Por diversas vezes, passou o trator por cima de aliados, sobretudo os do PFL. Maluf, cujo PPB integra a base do governo, foi, por exemplo, chamado de ladrão, corrupto e coisas do gênero, em voz alta diante das câmeras de televisão. Nem por isso, rompeu-se a aliança entre PPB e governo. Motta cortava de um lado e remendava de outro.
Lá estava, dentro do governo, o ministro Francisco Dornelles, do PPB, a atenuar os estragos e a reação de Maluf, que processava Motta no STF. Dele, dizia-se que era o alter ego do presidente da República, cujo perfil conciliador e diplomático repele o choque.
A ética da ambiguidade amolda-se com perfeição a um perfil maneiro, jeitoso, como o de Fernando Henrique. Mas não ao de um Sérgio Motta, uma espécie de Antonio Carlos Magalhães do lado de cá. Os conceitos emitidos pelo ministro a respeito dos pefelistas e do fisiologismo em política, expressos em numerosas palestras e entrevistas, merecem ser compendiados para subsidiar estudos futuros a respeito da psiquê dos políticos brasileiros deste fim de século.
Correspondem exatamente ao pensamento do presidente da República, segundo os que têm o privilégio de com ele privar longe de câmeras e microfones.

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