Ruy Fabiano
A engenharia política que produziu o primeiro ministério pós-regime militar, em 1985, levou seu mentor, Tancredo Neves, para o Além. Mesmo para uma raposa política como ele, tarimbado no jogo de pressões e contrapressões dos bastidores, foi impossível administrar tantos e tamanhos apetites. Tancredo não sobreviveu à sua obra, nem teve o dissabor de administrá-la. Sarney herdou o abacaxi.
Hoje, quando se lembra daqueles tempos, Sarney resume: Governei sob uma hipoteca política - e o mínimo que posso dizer é que, daquele jeito, não quero nunca mais.
Sarney pagou o preço de não ter sido eleito pelo voto direto e de gerir uma coalizão sobre a qual não tinha comando. Era refém dos dois partidos que o apoiavam: PFL e PMDB. Seu governo tinha uma eminência parda: Ulysses Guimarães, que presidia simultaneamente o maior partido do País, o PMDB, a Câmara dos Deputados e a Assembléia Nacional Constituinte. Era o tripresidente.
De quebra, era o substituto natural do presidente da República nas suas ausências e impedimentos, o que o tornava, frequentemente, tetrapresidente. O governo Fernando Henrique não possui um condestável com tais e tamanhas atribuições. Possui, porém, um número maior de partidos, na coalizão de seu governo: além de PFL e PMDB, há o PSDB, o PTB e o PPB. Os apetites se equivalem. Idem os métodos de pressão.
A vantagem de Fernando Henrique em relação a Sarney é a de não ser um presidente biônico. Foi eleito, e bem eleito, já no primeiro turno. Em compensação, Fernando Henrique, diferentemente de Sarney, é refém da reeleição. Além de ter reformas em andamento no Congresso, quer mais um mandato, o que o impede de indispor-se com qualquer de seus aliados. O resultado disso está expresso no perfil do novo ministério e nas acrobacias que o presidente fez para montá-lo.
O Ministério da Reforma Institucional (Mirin) já foi alvo de todas as anedotas. Não se crê na alta destinação que lhe atribui o presidente da República. Aparentemente, substituiu o Ministério da Articulação Política, que, por sua vez, nunca articulou coisa alguma. A articulação polítia sempre foi feita pelo próprio presidente junto aos caciques dos partidos aliados.
A reforma reacomodou os aliados. O tal perfil técnico que o presidente dizia buscar sobreviveu numa única e escassa indicação, chancelada pelo PPB: a do embaixador José Botafogo Golçalves para o Ministério da Indústria e Comércio. No mais, triunfou a mesma lógica que levou Tancredo para o Além, a tal hipoteca política a que se referiu José Sarney.





