A exibição de confiança do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) na reeleição de Fernando Henrique, conforme entrevista publicada ontem na imprensa de Brasília, é mais um gesto de formalismo político que propriamente uma constatação objetiva, com base em fatos.
O senador sustenta que não há adversário à vista e que o presidente, apesar das dificuldades da conjuntura econômico-social, deve vencer ainda no primeiro turno. No entanto, admite que ‘‘uma infelicidade com o Plano Real ou algum escândalo, sobretudo do ponto de vista moral’’, podem reverter esse quadro.
As hipóteses arroladas não chegam a ser inusitadas ou fora de propósito. Muito ao contrário. O Plano Real, em função da crise asiática, equilibra-se numa corda bamba, não dependendo de si mesmo para manter-se ereto. Depende de conjunções internacionais a que o Brasil está alheio. É agente passivo, não ativo, desse processo.
Já quanto aos escândalos, devem compor o prato principal do discurso oposicionista. O presidente Fernando Henrique tem conseguido passar ao largo de numerosas denúncias que afetam o seu governo, mas é certo que numa campanha - sobretudo nessa campanha - estará diante de acusadores mais inclementes, sem cuidados em dissociá-lo das falhas de seus auxiliares. Muito pelo contrário.
Ou seja, os fatores mencionados por ACM desautorizam o otimismo antecipado, ao menos no grau em que ele o expressa. Sua entrevista é mais um discurso de correligionário, ensaiando a retórica dos palanques, que a de uma analista frio e objetivo da política, que inegavelmente o é - e como poucos.
Mais próximo da realidade parece estar o senador José Sarney, que, em vez do palanque, optou (por enquanto) por subir ao muro. Em tal circunstância, pode exercitar melhor seus dotes analíticos. Pois bem: ele insiste em dizer que a campanha da reeleição será inteiramente diferente - e para pior - que a da eleição.
Não crê em vitória de Fernando Henrique no primeiro turno e aposta, apesar de todos os pesares, na unidade oposicionista no segundo turno, o que complica as coisas. E como complica.
Memórias - O senador Humberto Lucena mencionou, há alguns meses, que estava se organizando para escrever suas memórias, sobretudo do período em que atuou como líder da oposição ao governo militar.
Pouca gente sabe, mas era ele o líder do MDB quando da edição do AI-5 e do fechamento do Congresso, em 1968. Naquela ocasião, era um dos poucos parlamentares que se dispunham a denunciar torturas e prisões políticas da tribuna. Por isso mesmo, era frequentemente procurado por familiares de presos políticos. Morreu pobre e amargurado com as críticas que recebeu da mídia no final de sua carreira.
Pretendia revertê-las nas suas memórias, que não se sabe se chegaram a ser esboçadas.

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