A complexidade da base política do governo, expressa na recente reforma ministerial, aprofundou a convicção do presidente Fernando Henrique de que o melhor a fazer, na campanha eleitoral que se inicia, é não fazer nada.
Não há como harmonizar seus aliados nos estados. Em muitos casos, protagonizam disputas políticas ancestrais. Qualquer tentativa de aproximá-los seria desastrosa. Não é preciso ir muito longe. Basta ver São Paulo, base de atuação do presidente. Como conciliar Mário Covas e Paulo Maluf?
O presidente diz que seu candidato é Covas, mas fica por aí. Uma declaração quase sussurrada, que não gera votos. No mais, garante a Maluf espaço no Ministério, acesso ao comando da campanha da reeleição e carta branca para que sele aliança com o PFL paulista.
A palavra de ordem aos aliados é: cada qual que se vire. Não esperem do presidente auxílio em seus conflitos regionais - a menos, claro, que do outro lado o adversário seja o PT de Lula ou o PPS de Ciro Gomes, até aqui os únicos a desafiarem a reeleição.
O quadro se reproduz no Rio de Janeiro (César Maia x Marcelo Alencar), Minas Gerais (Eduardo Azeredo x Newton Cardoso), Santa Catarina, Paraná, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Amazonas etc. Se o presidente sobe no palanque de um aliado, contraria o outro e até o transforma em adversário. Como não tem o dom da ubiquidade, o jeito é não subir em palanque algum, a não ser no próprio, que será montado aqui mesmo, em Brasília, dentro do Palácio da Alvorada.
O presidente fará viagens, é claro. Não dá para disputar uma sucessão presidencial sem sair de casa. Mas usará preferencialmente o palanque eletrônico da televisão, gravando falas no horário eleitoral gratuito. O presidente conta com a visibilidade do cargo, que o manterá no noticiário da mídia para além do espaço da campanha.
Não inaugurará obras, em virtude de restrição da nova lei eleitoral, mas isso não fará muita diferença. As realizações de seu governo - e o programa Brasil em Ação, com suas obras em série, aí está - transbordam inevitavelmente para sua candidatura.
A grande preocupação do presidente é impedir que seus aliados, de tanto guerrear entre si nos estados, se esqueçam dos verdadeiros adversários, os candidatos Lula e Ciro Gomes.
As projeções iniciais sugerem que o presidente ainda não tem adversário à altura. A menos que o imponderável se manifeste (como em 1989, por meio de Fernando Collor), está com a reeleição nas mãos. Ninguém crê no triunfo da tese de candidatura própria do PMDB, a ser mais uma vez submetida à convenção nacional do partido, em junho.
Itamar Franco garante que o assunto não morreu, mas neste momento fala sozinho. O senador Roberto Requião (PMDB-PR) já aderiu à candidatura de Lula e o deputado Paes de Andrade, presidente nacional do partido, negocia sua permanência no cargo, em meio ao mais denso silêncio. Vai tudo bem com o presidente, mas o jogo ainda não começou.

mockup