Ruy Fabiano
Desde que se dispôs a governar sob uma aliança eclética com predominância conservadora, Fernando Henrique sugeriu a seus críticos à esquerda que estava dentro de um projeto pragmático de poder. Segundo sua concepção, só há duas maneiras de avançar: ou confrontando-se com as forças reacionárias ou incorporando-as.
Optou pela segunda alternativa. Isso explicava, naquela oportunidade, a presença do PFL em seu palanque, acrescida, após a posse, de PMDB, PTB e PPB. Essa parceria, no entanto, seria utilitária, dialética, tendo em vista as reformas e a necessidade de maioria parlamentar para implementá-las.
Conquistadas as metas - isto é, as reformas do Estado e o saneamento da economia - o governo poderia gradualmente assumir personalidade mais progressiva e menos fisiológica. Essa, em síntese, a estratégia, expressa em entrevistas e declarações do presidente, no início da campanha eleitoral de 1994.
No decorrer do governo, porém, o PFL passou a assumir espaços de influência e a dar sinais de que controlava o progresso e alterava o ânimo do próprio presidente. Refém das reformas, Fernando Henrique chegou a elogiar o profissionalismo dos pefelistas, o que provocava síncopes cardíacas nas lideranças do PSDB.
Na presente reforma ministerial, o presidente dispensou-lhes outro tratamento. Não os criticou ou os afastou do poder, mas os contrariou com exclusões e escolhas imprevistas. No mínimo, distanciou-os um pouco de sua intimidade, reaproximando-se do PSDB.
O desempenho inicial de José Serra no Ministério da Saúde vem confirmando todos os temores do PFL. O novo ministro não foi indicado por seu perfil técnico, de economista e bom administrador, mas por sua voracidade política, que o faz, desde já, candidato à Presidência da República em 2002. Serra tem estado diariamente nas primeiras páginas dos jornais e nos espaços nobres dos telejornais.
Nenhum ministro da Saúde anterior logrou tal feito, a não ser, claro, nos dias de nomeação e demissão. Serra trabalha para dar dimensão social ao governo FHC, sendo, da safra recém-nomeada, o único cem por cento garantido na hipótese de triunfo da reeleição.
O PFL está percebendo o progresso, mas não quer acusar o golpe. Prefere, dentro de seu pragmatismo profissional, fingir que está tudo bem. O líder na Câmara, Inocêncio Oliveira, o que mais exconjurou a reforma ministerial, foi instado a calar-se. O partido perdeu espaços, mas continua influente. Sabe que, neste momento, o adversário não é o presidente, mas os que desafiam a reeleição.
O PFL partilha da máxima segundo a qual não se faz política com o fígado. Neste momento, cabe-lhe absorver o revés, otimizar os espaços disponíveis na máquina administrativa e trabalhar pelo triunfo eleitoral. Se obtiver bom resultado, estará preparado para o segundo tempo do processo, cuja meta é impedir que emerja (se é que existe) o tal perfil progressista que o presidente jura que possui.





