Ruy Fabiano
Leonel Brizola, presidente nacional do PDT, já prepara terreno para o rompimento com o PT. Será, na verdade, um rompimento singular, na medida em que os dois partidos não chegaram a estar unidos - a não ser, claro, nas declarações descomprometidas de ambos os seus líderes.
PT e PDT sustentam, há anos, uma amizade esquizofrênica, que faz lembrar a letra de um samba de Nélson Sargento, que diz: O nosso amor é tão bonito/ela finge que me ama/e eu finjo que acredito.
Nada resume melhor a proposta de chapa comum entre os dois partidos para a eleição presidencial, feita há alguns meses por Brizola. Pior: com ele, Brizola, na condição de vice. Quem conhece o perfil do ex-governador surpreendeu-se com a proposta. Brizola não é exatamente alguém acostumado a ficar em segundo plano ou a cumprir ordens.
Desde que se dispôs a ser o vice de Lula, Brizola passou a cobrar da direção nacional do PT uma intervenção na seção fluminense. Quer que o partido apóie seu candidato a governador do Rio, o radialista Anthony Garotinho. O PT do Rio é comandado por xiitas e tem um candidato ao governo: o ex-deputado Vladimir Palmeira. Lá está também outro adversário do brizolismo, o deputado Milton Temer.
O duelo entre pedetistas e petistas no Rio é histórico - e histérico. Atravessou toda a década de 80 e 90 e é improvável que agora, no limiar do 2000, venha a mudar. Não há diálogo, nem à vista, nem a prazo. Lula não tem cacife nem disposição para desafiar os xiitas.
Ele próprio teve dificuldades de ser assimilado por eles. Sua candidatura presidencial esteve por um fio. Para eleger José Dirceu presidente nacional do partido, penou e se expôs. Tudo o que quer agora é unir as bases do partido. Não fará sacrifícios por Brizola.
A aliança com o PDT é aceita com ceticismo. Não se acredita, em primeiro lugar, na consistência da proposta brizolista; em segundo, sabe-se que ele não soma votos para o PT. Lula e Brizola, juntos, é esse o consenso nas oposições, encenariam o abraço dos afogados. Nada mais. Ambos são votados e rejeitados nas mesmas áreas.
Brizola já percebeu que não faz sentido manter-ser atrelado àquele compromisso. Mas quer que o rompimento pareça responsabilidade do PT, fruto da intransigência da seção fluminense. Nos últimos dias, tem afiado sua retórica, levando a provocação ao grau máximo. Comparou os petistas ao partido nazista. Mas, quando cobrado, disse que foi uma observação fraterna. E pergunta: Por que esse ódio contra mim?
Os petistas fluminenses recusam a aliança com o brizolismo - e sobretudo com o radialista Garotinho - por considerá-lo contaminado pelo fisiologismo e pelo populismo.
Brizola não tem dúvida de que a parceria acabou. E que todo esforço até aqui empreendido morrerá na praia. Nisso, ao menos, ele e Lula estão de pleno acordo.





