Ruy Fabiano
Como termina amanhã o prazo das desincompatibilizações - isto é, para que os ministros que querem se candidatar às eleições de outubro deixem o governo -, não há mais como protelar a reforma ministerial. Terá que ser formalizada hoje.
Manteve-se, porém, indefinida até o último instante. O noticiário reflete essa indefinição e, mais que isso, o ambiente de tensão e de pressões em que tudo ocorreu. O presidente Fernando Henrique falou grosso, disse que quem manda é ele, mas sabe que, por trás dessa coreografia autoral, há um jogo de cartas marcadas ao qual não pode fugir.
O presidente manda, mas o limite de sua vontade e o grau de dependência que tem em relação ao Congresso - um grau considerável. Há ainda reformas por concluir - a previdenciária e a tributária - e não dá para prescindir do apoio dos (digamos assim) aliados.
A rigor, a única escolha que resultou da vontade solitária do presidente da República foi a de José Serra para o Ministério da Saúde. Mantê-la não lhe foi fácil. Precisou enfrentar a ira dos aliados do PFL, que tudo fizeram para entornar o caldo.
Ninguém questionou a competência do novo ministro, muito pelo contrário. Foi exatamente essa competência que gerou temores e protestos. O raciocinio chega a ser surrealista, mas é real - realíssimo.
É mais ou menos o seguinte: Serra na Saúde significa a possibilidade de as coisas melhorarem, o que aumentará seu cacife político (e o do PSDB) para a sucessão de Fernando Henrique em 2002. Nesse caso, o melhor é que ele não vá para lá. Ou, não sendo possível impedi-lo, é preciso que sua gestão fracasse.
Em graus de intensidade variados, esse é um raciocínio absolutamente corriqueiro na politica brasileira, desde os tempo de Thomé de Souza. Ninguém se espanta com ele. Não acontece só com o PFL, justiça se faça. Quando, por exemplo, o hoje deputado Moreira Franco (PMDB) assumiu o governo do Rio, sucedendo a Leonel Brizola (PDT), sua primeira iniciativa foi fechar a fábrica dos Cieps, escolas de ensino básico de horário integral cuja imagem estava associada a seu antecessor.
Pouco importava se as escolas eram úteis ou não - havia um consenso de que eram -, importava que eram conhecidas pelo povo como brizolões e não convinha contribuir para sua disseminação, que poderia favorecer o adversário. A alfabetização de crianças era mero detalhe. Essa lógica comparece na reforma ministerial de agora e constitui um dos argumentos mais fortes em defesa do princípio da reeleição.
Diz-se que, havendo reeleição, não haverá risco de interrupção de obras e programas caros, que já oneraram o contribuinte. Não havendo reeleição, há o risco de comprometimento do esforço anterior por parte do novo governante, que não quer compartilhar glórias.
A reforma cria um ministério diferente do desejado por FHC, que o queria com perfil técnico. Do jeito que esta, expressa a luta por hegemonia que divide a base política do governo.





