Ruy Fabiano
A fúria do ex-presidente Itamar Franco contra Fernando Henrique e o governador gaúcho Antonio Britto não encontra lastro na lógica política mais elementar. Itamar queixa-se de maus tratos e de traição. Fernando Henrique o teria tratado mal na convenção do PMDB. Antonio Britto, apoiando Fernando Henrique, o teria traído.
Difícil compreender o raciocínio do ex-presidente. Como funcionário de confiança do governo Fernando Henrique - foi seu embaixador em Portugal e depois, junto a OEA -, devia-lhe obediência e disciplina. E não lhe deu nem uma coisa, nem outra. Preferiu desafiá-lo. Tudo bem, desde que, antes, deixasse o cargo.
Decidiu, porém, fazê-lo mantendo o cargo. Nesse caso, Fernando Henrique é que deveria estar se queixando de traição. O que ele imaginava que, a partir daí, ocorreria? Seria homenageado pelo presidente? Claro que passaria a ser (como de fato o foi) tratado como adversário.
Dias antes da convenção, Itamar proferiu frases desafiadoras, criticando ações do governo e do presidente. Divergir do governo e, mesmo, desafiá-lo é direito de qualquer cidadão - não, porém, dos funcionários públicos de confiança que não renunciam ao cargo. Somente agora, após os choques da convenção do PMDB, Itamar deixou o cargo.
Pode-se criticar a truculência com que alguns aliados do governo (o senador Jader Barbalho, por exemplo) a ele se referiram, ferindo-o na sua dignidade, mas surpreender-se com o ambiente de disputa que cercou a convenção é ingenuidade. Em quatro décadas de vida pública, o ex-presidente conhece bem como funciona o processo.
Com relação ao governador Antonio Britto, não houve deslealdade. Britto não fez nada que não estivesse rigorosamente dentro das previsões e de suas declarações desde que se iniciou o atual governo. Foi eleitor de Fernando Henrique em 1994, mesmo já pertencendo ao PMDB, que tinha candidato próprio (Orestes Quércia).
Ambos foram ministros de Itamar, que chegou a convidar Britto para sucedê-lo na Presidência da República, antes de optar por Fernando Henrique. Britto declinou do convite alegando razões pessoais. Itamar, em entrevista a IstoÉ desta semana, sugere que, nessas alegações de Britto, haveria motivos pouco edificantes. Faz mistério, diz que tem até mulher no meio e promete levar para o túmulo o segredo. Por fim, desafia o governador a olhá-lo nos olhos.
Como Itamar não é nem ingênuo nem desinformado, o que se deduz de seus gestos e declarações é que ele prepara o discurso com que ingressará nos palanques oposicionistas.
Cortejado pelos candidatos de oposição - Lula (PT) e Ciro Gomes (PPS) contam com seu apoio - , Itamar pretende transformar-se naquilo que Fernando Henrique disse numa entrevista temer que ele viesse a ser, na hipótese de um rompimento: fator de constrangimento para o presidente. Não se espere, dentro dessa estratégia, coerência ou lógica. A idéia é exatamente dar conteúdo emocional ao processo.





