A indignação com que o líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira, vem reagindo à reforma ministerial dá a dimensão do grau de tutela que o partido exerce sobre o presidente. Premido pela necessidade de aprovar as reformas antes do início da campanha eleitoral, o presidente submeteu-se resignado a essa tutela.
Eis porém que decidiu, se não rompê-la, ao menos limitá-la. Está determinado a compor seu novo ministério com um mínimo de injunção partidária. Não por questões de ética ou de moralidade, mas dentro de um sentido prático: quanto menos partidarizado for o ministério, menos questionamentos produzirá dentro de sua base política.
O presidente vive situação singular: é candidato à reeleição apoiado por forças políticas que duelam entre si. A nomeação de José Serra para o Ministério da Saúde evidenciou os riscos de compor um ministério pelo critério político-partidário. O partido contemplado com os ministérios de primeira classe deflagra a fúria dos demais aliados, enfraquecendo politicamente o governo e expondo a candidatura presidencial a riscos e desgastes.
Um ministério de perfil técnico é, nesse sentido, nenos problemático. O presidente já esteve mais à vontade para tratar do assunto. Hoje, tem o PFL a pressioná-lo para que nomeie parlamentares que não disputarão a eleição de outubro. O partido não se conforma de perder espaços dentro da máquina administrativa.
Como a reforma começou com a nomeação de Serra, candidato a suceder Fernando Henrique em 2002, ficou contaminada pela discussão política. Serra é apresentado pelo presidente como alguém escolhido por sua capacidade técnica. É brilhante, com vasto curriculo administrativo e indiscutível capacidade gerencial.
O PFL acha que tudo isso é pretexto para fortalecer o PSDB. Serra, sem dúvida, tem preparo técnico, mas é, acima de tudo, político com pretensões ambiciosas. O Ministério da Saúde é um dos mais problemáticos, mas o governo está empenhado em investir na sua reestruturação, o que dará grande visibilidade política a quem encabeçar o processo. Serra, nesses termos, terá os meios que forem negados a seus antecessores e poderá realizar trabalho de grande repercussão social.
O presidente voltou ontem a negar que a reforma esteja contaminada pela discussão política-partidária: ‘‘A decisão é só minha. Só minha e independente’’. Com certeza, mas estará condicionada aos interesses das forças políticas que o apóiam.
O presidente já demonstrou, em outras oportunidades, que possui habilidade e disposição para administrar aliados tão desunidos. Não há dúvida de que encontrará um jeito, mas é certo que não poderá impedir que, antes mesmo de viabilizar sua reeleição, sua sucessão futura já esteja contaminando o convívio em sua base política.
É uma situação insólita, em que o futuro se interpõe sobre o presente na certeza da consumação prévia de uma mera hipótese: a reeleição.

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