Não é fácil administrar uma base de alianças eclética, unida como no caso de PFL, PPB, PSDB e PMDB, apenas pelo desejo de exercer o poder. Não há um programa comum, um ideário consensual - apenas um imenso apetite a ser compulsoriamente compartilhado.
Se dependesse da vontade do presidente Fernando Henrique, a reforma ministerial tinha ocorrido em dezembro do ano passado. O presidente pretendia começar o ano com um ministério basicamente formado por técnicos, gente acima de qualquer suspeita partidária.
Desse modo, imaginava atenuar os questionamentos em torno de sua recandidatura e reduzir as intrigas internas em sua base de apoio. A vontade do presidente influi, mas, como é óbvio, não decide tudo. Prova disso é que teve que recuar e deixar a reforma para depois.
Acabou precipitada pela saída do ministro da Saúde, Carlos Albuquerque. O PFL não gostou da precipitação. Queria manter seus correligionários nos cargos até o último instante e exercer sua tutela na escalação do novo time. Quando percebeu que o senador José Serra iria substituir Albuquerque, sentiu-se traído e ensaiou movimento de solidariedade ao demissionário - uma solidariedade extemporânea, diga-se.
Na verdade, o PFL começa a disputar na reforma a sucessão presidencial de 2002. Como ninguém, na base do governo, duvida da reeleição - atitude que o deputado Delfim Neto (PPB-SP), com razão, considera precipitada e perigosa - já se discute sua sucessão.
O PFL saiu na frente e lançou a candidatura presidencial de Luís Eduardo Magalhães, que na eleição deste ano disputará (segundo alguns apenas receberá por doação) o governo da Bahia. O PSDB aposta em José Serra para suceder FHC. Sua indicação para a Saúde, área que mexe com o metabolismo psicossocial do país, desagrada o PFL.
Se Serra fizer um bom trabalho, credencia-se a ser mantido no cargo na hipótese de reeleição. E sai na frente de Luís Eduardo, que, como provável governador da Bahia, ficará confinado à província. É, sem dúvida, um duelo idiota e precipitado, mas o jogo político é feito sobretudo desses embates irracionais, movidos por apetites.
Serra e Luís Eduardo têm se comportado como se fossem bons amigos, mesmo não sendo. Faz parte da coreografia do processo. O choque é exercitado nas periferias, pelos respectivos aliados. Os dois, de fato, nada têm de pessoal um contra o outro. Desfrutam do convívio mais próximo do presidente e são frequentemente consultados.
A diferença é que Serra é um personagem do mundo de Fernando Henrique, elo efetivo com suas bases, alma-gêmea como intelectual e político. Luis Eduardo, não. É a interface de Fernando Henrique com o PFL, aliado importante, decisivo mesmo, mas personagem feito de outra substância, cujo apoio depende de numerosos condicionamentos.
O PFL sabe disso. Por isso, marca Serra com a implacabilidade com que os europeus devem cassar Ronaldinho e Romário em gramados franceses na Copa do Mundo.

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