Ruy Fabiano
Alianças políticas incoerentes não são privilégio do governo Fernando Henrique. Na oposição, é o que não falta. Quando se trata de contabilizar apoio eleitoral, vale tudo. Lula há poucos dias, referindo-se a uma eventual aliança com Orestes Quércia (PMDB), disse que não pode impedi-lo de que o apóie.
Não se trata, porém, apenas disso, de receber ou não o apoio espontâneo e descomprometido de Quércia e sua estrutura partidária. Cogita-se de uma aliança eleitoral em São Paulo, com cláusulas de reciprocidade e compromissos específicos.
Incoerência? Não mais que a recente aproximação entre o senador Roberto Requião (PMDB-PR) e o mesmo Quércia, que, no passado, não apenas não se cumprimentavam como se processavam mutuamente na Justiça. Requião criou o disk-Quércia, para receber denúncias de atos de corrupção contra o ex-governador, que chamava publicamente de ladrão. Este, por sua vez, proclamava aos quatro ventos que o senador paranaense tinha escassas convicções masculinas e era conhecido, na intimidade, por Maria Louca.
Hoje, estão juntos, no mesmo palanque, como velhos amigos. No governo Itamar Franco, a ex-prefeita Luiza Erundina foi expulsa do PT (e depois readmitida) porque aceitou convite para ser ministra da Administração. O PT foi o único partido a negar apoio ao governo Itamar, por não considerá-lo suficientemente legítimo.
Hoje, o PT busca aliança eleitoral com Itamar, por cujo triunfo torceu na convenção nacional do PMDB. O PPS (ex-Partido Comunista) cobra coerência dos petistas e se julga com mais direitos de conquistar o apoio de Itamar para seu candidato, Ciro Gomes.
De fato, não apenas Ciro foi ex-ministro da Fazenda de Itamar, como o senador Roberto Freire, presidente do PPS, foi seu líder na Câmara. A coerência termina aí. Ciro, diferentemente de Freire, fez sua carreira política na contramão do discurso socialista, que hoje considera mais que nunca superado. No entanto, é candidato a presidente da República exatamente pelo Partido Popular Socialista.
E é nessa condição que está tentando obter o apoio do Partido Liberal (PL) à sua candidatura. Convém lembrar que o liberalismo é doutrina oposta ao socialismo. Enquanto este advoga a estatização dos meios de produção, o liberalismo sustenta o contrário: a ausência do Estado do cenário econômico. Que poderia resultar de tal aliança, se efetivamente as partes estivessem precocupadas em pôr em prática a doutrina de seus respectivos programas?
Como ninguém cogita disso, não há problemas. Ciro Gomes não deixou o PSDB por razões doutrinárias ou mesmo éticas. Deixou porque quer espaço para dar continuidade à sua carreira política. Tem muito mais afinidades político-ideológicas com Fernando Henrique que com Roberto Freire, Lula ou mesmo Álvaro Valle, presidente do PL.
Lula, por sua vez, tem muito mais a ver com Roberto Freire que com Itamar, que até hoje esqueceu de pedir demissão ao governo Fernando Henrique, do qual continua sendo funcionário de confiança. E assim por diante.





