Apesar das negativas de Lula, persistem informações que o dão como inclinado a desistir de sua candidatura presidencial. As dificuldades que vem encontrando são múltiplas, dentro e fora do partido, e têm uma motivação básica: a descrença geral, no âmbito dos partidos de oposição, nas suas chances efetivas de vitória.
Sabe-se que a única chance de triunfo de uma candidatura oposicionista é a unidade que consiga construir em torno de si. A partir daí, é possível dar conteúdo prático ao sonho de vitória contra Fernando Henrique. Sem unidade, porém, nada feito. Questão de aritimética.
Lula, neste momento, não conseguiu unidade nem no PT. O estigma de duas derrotas consecutivas e a convicção de que sua imagem perante o público está desgastada e presa ao passado fortalecem os que querem removê-lo. Ele sente-se desmerecido e tem dificuldades de conservar, nesse ambiente, qualquer resíduo de entusiasmo.
Os aliados potenciais estão cada vez mais distantes. O PPS vai mesmo de Ciro Gomes. O PDT cada dia desconversa mais. Brizola, que, no início do processo, chegou a oferecer-se como candidato a vice de Lula, numa chapa de consenso, já não é o mesmo.
Voltou a criticar o PT, a valorizar diferenças e obstáculos e, hoje, já condiciona a parceria a uma ‘‘consulta às bases’’ _ o velho chavão dos políticos quando querem protelar ou mudar decisões. Quando se ofereceu para ser vice de Lula, Brizola não precisou consultar as bases. Nem muito menos para opor-se ao impeachment de Fernando Collor.
O PSB de Miguel Arraes tem sido, ao menos, mais coerente. Arraes, desde o princípio, criticou a candidatura Lula, por achá-la eleitoralmente inviável. Estimulou a candidatura Ciro Gomes, da qual também desistiu em função de resistências a seu nome na própria seção cearense do PSB. De Ciro foi para Itamar Franco, mas a convenção do PMDB inviabilizou seu sonho.
Sem alternativas, Arraes passou a ser pressionado pelas bases do partido para se coligar ao PT. Não que as bases do PSB creiam nas chances de Lula. O que o partido quer é beneficiar-se de coligações estaduais. Nos estados onde o partido tem alguma expressão, o PT é o único parceiro viável. Sem a parceria, o PSB extingue-se; com a parceria, pode eleger bancadas razoáveis para a Câmara dos Deputados e Assembléias Legislativas.
Mesmo diante dessas pressões, Arraes protelou. Apenas formou uma comissão interna para discutir com os demais partidos de oposição a viabilidade de uma aliança com o PT. Juscelino Kubitschek dizia que, no Brasil, quando não se quer resolver alguma coisa, cria-se uma comissão (quando se quer, paga-se uma comissão, mas essa é outra história). A comissão do PSB é um recurso para aguardar o desembarque da candidatura Lula.
O problema maior, porém, não é o desembarque, mas o que embarcar no lugar. As inscrições estão abertas.

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