O lançamento da candidatura presidencial de Luís Eduardo Magalhães, do PFL, para 2002 é a melhor demonstração do ambiente de confiança e otimismo da base governista com relação às eleições deste ano. Em tese, já não se discute a eleição de agora, mas a próxima.
A vitória de Fernando Henrique é tida como resolvida, como se nada o ameaçasse e o processo eleitoral fosse mero rito homologatório. E é aí que mora o perigo. Muito embora tudo pareça sob medida para os planos governistas - a adesão do PMDB, a divisão oposicionista e o favoritismo nas pesquisas -, há vários complicadores pelo caminho.
Além daquilo que se costuma chamar de imponderável, expresso na máxima segundo a qual ninguém ganha eleição de véspera - e o próprio Fernando Henrique viveu essa experiência quando perdeu para Jânio Quadros a prefeitura de São Paulo, nos anos 80 -, há as dificuldades decorrentes da própria natureza da aliança governista.
Como se sabe, os aliados do governo não são aliados entre si, muito pelo contrário. Em praticamente nenhum estado eles se entendem. O PMDB chega ao paroxismo de não se entender nem internamente, nem com seus aliados. Em São Paulo, por exemplo, um de seus mais fortes caciques, Orestes Quércia, ficará contra governo e aliados e examina possível aliança nacional com o PT.
Ainda em São Paulo, há a notória desavença entre PSDB e PFL. Fernando Henrique havia decidido resolver o impasse pela via da omissão. Se ninguém se entende e todos os apóiam, a solução ideal é acompanhar a eleição de Brasília, pela televisão.
A participação presidencial, nesses termos, resumir-se-ia a gravações para o horário eleitoral gratuito. No mais, que todos se engalfinhem à distância. Pode parecer uma solução razoável, só que, em São Paulo, não funciona. O governador Mário Covas exige que Fernando Henrique faça opção pública por sua candidatura.
O presidente já disse em entrevista, antes do início da campanha, que seu candidato em São Paulo é Covas. Não é suficiente. Covas quer que isso seja dito do alto dos palanques e repetido no horário gratuito. Como, se Paulo Maluf, adversário de Covas, integra o comitê da reeleição?
Os tucanos paulistas dizem que, se Fernando Henrique for eleito no primeiro turno - e é essa a expectativa otimista de seus aliados -, trairá os malufistas no segundo turno da eleição de São Paulo, assumindo com maior ênfase a candidatura de Mário Covas.
Tal hipótese é suficiente para que parte dos aliados já questione a conveniência de uma vitória de FHC no primeiro turno. O segundo turno passa a ser uma conveniência estratégica, para valorizar cacifes políticos na futura montagem do governo.
Essa disputa interna por espaços de poder, já plenamente deflagrada, é o calcanhar-de-aquiles da poderosa aliança governista. É nele que os adversários querem investir para quebrar expectativas e sonhar com uma zebra sucessória.

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