O cenário de uma sucessão novamente polarizada com Lula é o sonho dourado de Fernando Henrique, que se tornou mais real após a convenção peemedebista de domingo. O remoto entrave à polarização (remoto segundo a perspectiva deste momento) é a candidatura de Ciro Gomes, do PPS. Até aqui, é o único que se interpõe entre Lula e FHC.
Ameaça muito maior, como é óbvio, seria enfrentar um nome mais conhecido, como Sarney, Itamar ou Requião, respaldado por uma estrutura partidária como a do PMDB, com diretórios em todos os municípios do país e um imenso tempo no horário gratuito eleitoral.
A convenção, de uma só cajadada (e o termo tem tudo a ver com o que aconteceu lá), demoliu essas preocupações. Ciro Gomes é um político talentoso, voluntarista e com imensa ambição, mas enfrenta grandes complicadores. O primeiro é a microestrutura partidária do PPS, partido que possui três ou quatro gatos pingados na Câmara e está presente em pouquíssimos pontos do país. Terá por isso escassos minutos no horário eleitoral gratuito.
Eleição presidencial é estrutura, sobretudo em eleição casada, que envolve praticamente todos os espaços de poder, do estadual ao federal. A eleição de Collor, em 1989, é sempre citada quando se subestima a candidatura de Ciro Gomes. Há, de fato, entre os dois (embora ambos se contrariem com isso), enormes semelhanças.
Ciro, como Collor, é nordestino, jovem e com um discurso bem articulado. Collor, porém, enfrentou uma eleição solteira, isto é, exclusivamente para a presidência. Pôde, por isso, contar com a adesão de políticos de outros partidos, insatisfeitos com seus respectivos comandos. Numa eleição casada, isso é improvável. Todos querem estar atrelados às respectivas estruturas para delas beneficiar-se.
Há mais. A esquerda, a do PT sobretudo, não confia em Ciro. Lula admitia abdicar de sua candidatura em favor do senador Roberto Requião ou mesmo de Itamar. Em relação a Ciro, porém, é categórico: não tem conversa. Sem estrutura partidária, sem penetração nas elites e rejeitado por parte expressiva das esquerdas, Ciro é, por enquanto, um personagem à margem do processo.
Sua expectativa é de que os dissidentes do PMDB, sobretudo Itamar Franco e Roberto Requião, o apóiem. Quanto a Itamar, é possível; quanto a Requião, é improvável. Tem compromisso com o PT e deve apoiar Lula. Ainda que os dois venham a apoiá-lo, é difícil imaginar que isso altere muito sua situação.
As chances de Ciro estão no imponderável, que é um fator de razoável presença nas eleições presidenciais. Se o processo, no entanto, mantiver a lógica atual, tudo conduz para nova polarização.
Não quer dizer, no entanto, que se repetirá a goleada de 1994, como sugerem os adeptos da reeleição. Os tempos são outros, como adverte o senador Sarney, e o que está em pauta não é mais a sobrevivência do real, mas o que fazer com ele para melhorar a situação do povo.

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