Passado o vendaval da convenção, o PMDB começa a recolher seus próprios fragmentos. A palavra-de-ordem é manter a unidade. Não há tanta dificuldade nisso. O PMDB nasceu rachado. É sucessor do extinto MDB, que foi sempre uma frente heterogênea, multifacetada, unida menos por idéias que pelo pragmatismo de conquistar o poder.
O PMDB herdou essa característica, dando-lhe conteúdo ainda mais utilitarista. Ninguém quer abdicar da estrutura física do partido, o único presente nos mais de cinco mil municípios do país. Ninguém está preocupado com a ideologia de ninguém. O que importa é que cada qual respeite o feudo do vizinho. Sim, porque o PMDB é feudal.
Há o PMDB de Sarney, de Jáder Barbalho, de Orestes Quércia, de Itamar Franco, de Paes de Andrade, de Antonio Britto. São os donatários dessa enorme capitania hereditária cujo apoio todos os governadores cobiçam. É essa cobiça que mantém o partido simultaneamente unido e em pé de guerra. A tanto leva a proximidade do poder.
Num partido com tal perfil, é natural que convenções se transformem em campos de batalha. Não há muita novidade nisso. Passado, porém o confronto, a retórica amansa e inimigos da véspera voltam às boas. Basta ver o tom já quase cordato com que Paes de Andrade, o desafiante, se manifestou após a derrota. Não se faz política com o fígado, ensinava Tancredo Neves - e essa lição todos conhecem.
Paes, no discurso pós-derrota, já não se referia aos adeptos da reeleição como ‘‘traidores do partido’’, mas como ‘‘companheiros’’, cuja tese triunfou. É nesse ambiente de busca de concórdia que o partido pretende comportar-se daqui por diante. Também essa atitude é pragmática: ninguém quer mais confusão, sobretudo em ano eleitoral.
Os governistas estão sendo aconselhados pelos bombeiros do partido a não adotar medidas punitivas contra Paes e seus aliados. Afinal, eles tiveram 303 votos, quase a metade da convenção. São votos que resistiram à ação do rolo compressor do governo e cuja reabsorção será fundamental para que o partido chegue em bom estado às eleições.
Os 389 votos obtidos pelo governo não têm a mesma consistência. Grande parte aderiu por pressão fisiológica. É gente cujo apoio não oferece qualquer garantia. Até a véspera assegurava apoio aos dois lados. O importante é que nenhum dos lados quer mais briga.
A convenção de domingo não é a definitiva. Até junho, quando o partido terá que formalizar essa decisão em nova convenção, há muita água a correr. Fernando Henrique, no entanto, volta a ostentar vasto favoritismo na sucessão. Recupera sua auto-estima de candidato, que estava abalada. Mantendo-se o quadro atual, seu grande desafiante continua a ser Lula, o adversário de seus sonhos.
Ciro Gomes, sem a parceria peemedebista e sem o apoio petista, volta a ter o tamanho do PPS. Não ameaça o sonho da reeleição. Os grandes azarões seriam Itamar franco, José Sarney ou Roberto Requião, derrubados com uma única cajadada pela convenção do PMDB.

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