Ruy Fabiano
Não é fácil produzir um discurso que una uma coletividade tão heterogênea quanto a do PMDB. São vários partidos dentro de um só. O traço de união é a sede de poder. E é a partir dessa perspectiva que ambos os grupos que disputam a convenção de amanhã imaginam vencer.
O grupo pró-reeleição, encabeçado pelo líder do governo Geddel Vieira Lima (BA), pelo presidente da Câmara, deputado Michel Temer (SP), pelo senador Jáder Barbalho (PA) e pelos ministros do partido, imagina que prevalecerá o peso da estrutura governista.
Segundo esse raciocínio, o partido, escaldado por insucessos anteriores em eleições presidenciais - Ulysses Guimarães em 1989, Orestes Quércia em 1994 -, preferirá o pássaro na mão da reeleição aos dois voando da candidatura própria.
Um partido com a estrutura do nosso não pode se dar ao luxo de entrar em aventuras, diz o líder Geddel. Pode ser. Mas os argumentos do lado rebelde, o da candidatura própria, são exatamente os mesmos, para justificar opção diametralmente oposta. Vejamos.
O presidente do partido, deputado Paes de Andrade, diz que um partido com as dimensões do PMDB - o que possui mais governadores, prefeitos, vereadores e parlamentares federais e estaduais - não pode abdicar da disputa direta do poder. Se o fizer, condena-se a morrer, diz Paes. Difícil contra-argumentar, sobretudo quando Paes completa: Nosso partido possui dois dos três mais populares candidatos à presidência: Itamar Franco e José Sarney.
O outro, claro, é Fernando Henrique, com o detalhe (que não é exatamente um detalhe) de que já foi mais popular que agora. Os ânimos estão exaltados. Os governistas cobram o compromisso da legenda com a aliança que dá sustentação ao governo, e que rendeu alguns cargos importantes ao partido.
O deputado Paulo Lustosa (CE), pró-candidatura própria, rebate: Nosso compromisso foi de cunho meramente administrativo, objetivando a governabilidade. Em nenhum momento nos comprometemos a aderir a um projeto político-eleitoral continuísta.
Lustosa rebate também a tese de que a canditatura própria recoloca o partido diante do fiasco de 1989 e 1994: Não houve fiasco. Mesmo perdendo aquelas disputas, o PMDB elegeu o maior número de governadores e bancadas. E só o fez porque tinha candidato próprio.
Os adeptos de Paes queixam-se do jogo duro governista, que teria posto em cena os financiadores de campanha - empreiteiros, banqueiros e outros endinheirados -, pressionando convencionais e acenando com a perspectiva de apoio eleitoral em troca de adesão à reeleição. Diz um oposicionista:
Tudo isso é inútil. Mesmo sob o ângulo puramente fisiológico, a tese de candidatura própria tem mais apelo. Se o partido se alinhar a FHC, o cacife dos convencionais passará a valer nada no dia seguinte. Se, porém, vencer a candidatura própria, nosso cacife cresce.
A decisão final, como se sabe, será apenas em junho, quando o partido formaliza em termos definitivos sua candidatura.





