Ruy Fabiano
O presidente Fernando Henrique já esteve mais próximo da reeleição. Ela ainda está a seu alcance, mas já não lhe parece tão óbvia como a princípio - nem a ele, nem a alguns de seus aliados.
Isso explica o comportamento subitamente afirmativo de alguns ex-aliados do presidente, com o senador José Sarney e o ex-presidente Itamar Franco, hoje adeptos da candidatura autônoma do PMDB - e obviamente contra a de Fernando Henrique.
Ambos cultivaram a ambiguidade enquanto puderam. Não se sentiram seguros em desafiar o presidente e preferiam avaliar a relação custo-benefício de apoiá-lo. Até alguns meses atrás, não havia muita nitidez nesse quadro. Sarney, por exemplo, chegou a manifestar-se simpático à candidatura Fernando Henrique, o que fez com que a ala governista do PMDB cogitasse de convidá-lo para substituir Paes de Andrade, o presidente rebelado do partido.
Itamar Franco, por sua vez, balançou como um pêndulo: ora apoiava, ora desapoiava a reeleição. Admitiu candidatar-se a presidente da República, a governador de Minas e a senador - com o apoio de Fernando Henrique, claro. Admitiu também não se candidatar a nada: poderia apoiar Fernando Henrique ou Ciro Gomes ou até mesmo Sarney, com quem selou um pacto de não-agressão e de mútua consulta (pacto, aliás, em plena vigência).
A hipótese de candidatura própria do PMDB, em que ninguém a princípio acreditava, tornou-se dia a dia mais concreta. A ala governista do partido ainda apregoa vantagens, mas, a rigor, a convenção nacional de domingo é uma incógnita e mantém o governo em profunto e dramático suspense.
Uma eventual derrota embaralha a sucessão e liquida o sonho de Fernando Henrique de nova disputa polarizada com Lula. Aliás, essa hipótese parece já liquidada, independentemente do resultado de domingo. A candidatura Ciro Gomes, afinal, está aí e pode atrair apoios eventualmente frustrados pela derrota da tese de candidatura autônoma do PMDB.
O que preocupa o governo é a natureza das dissensões presentes. Não se trata de políticos radicais, de esquerda, cujo discurso desafia os pressupostos da modernidade e do capitalismo. Esses assustam pouco, já que não conseguem apoio expressivo junto à elite econômica.
As dissensões dão-se no campo conservador. Sarney e Itamar não são exatamente xiitas. São políticos moderados, com razoável penetração na base de alianças governistas. Associados a nomes como Roberto Requião, Ciro Gomes, Miguel Arraes, Brizola e Lula, podem viabilizar ampla frente eleitoral. Temas não faltam: desemprego, reaquecimento da economia, salários etc.
A eficácia do discurso do real persiste. Só que, na hipótese de estabelecimento de tal frente, a paternidade do Plano estará diluída, já que alguns de seus mentores - Itamar e Ciro Gomes, por exemplo - estarão do outro lado.





