Ruy Fabiano
Aparentemente, não há muito a acrescentar ao julgamento ético e criminal a que está sendo submetido o deputado Sérgio Naya. Seus delitos tiveram a concretude que faltou ao edifício Palace 2 e dispensam novos comentários. Importa avaliar outro aspecto da questão: o ambiente institucional que propiciou o triunfo político de alguém com tal perfil. Não se faz um Sérgio Naya sem amplas e sólidas cumplicidades.
Alguém já tentou obter financiamento para construção de casa própria em algum banco estatal? O volume de exigências é enorme. Não pode constar uma única e escassa pendência na Justiça. São exigidas numerosas certidões de nada consta do pretendente.
Uma vez autorizado o crédito, as liberações dão-se em etapas, vistoriadas com profundo rigor técnico. Isso, claro, para os créditos de pessoa física. Quando se trata de pessoa jurídica, com créditos e riscos bem mais amplos, tudo muda. Só isso explica como alguém como Sérgio Naya, com quase novecentos processos na Justiça, conseguia construir edifícios com financiamentos milionários de bancos estatais.
Difícil condená-lo sem aplicar idêntico (ou maior) rigor aos técnicos da prefeitura do Rio que fiscalizaram a obra ou aos agentes do órgão estatal que a financiou. A delinquência está entranhada na máquina estatal. Não há vontade política para removê-la.
Vigora, nas relações entre capital e Estado, no Brasil, uma lei não escrita segundo a qual vale tudo, desde que se mantenham as aparências. Se alguém é flagrado, sabe que terá que expiar sozinho os pecados coletivos. Foi assim com PC Farias, está sendo assim com Sérgio Naya. Corta-se a árvore, conserva-se a floresta.
Cassar o mandato de Naya e, mesmo, pô-lo na cadeia produzirá alguma catarse coletiva, aplacará os ânimos mais exaltados, mas, a rigor, não mudará muita coisa. O terreno para que novos Nayas surjam continuará aberto. Quantos Nayas há no Congresso, nas assembléias legislativas e nas câmaras municipais?
Basta ver que as confissões feitas pelo deputado à Câmara Municipal de Três Pontas não produziram qualquer pasmo aos ouvintes. Ao contrário, provocaram risadas cúmplices por partes dos vereadores. A denúncia veio apenas depois que o prédio desabou, provavelmente motivada mais pelo valor pecuniário que a fita passou a ter que pelo ardor ético corretivo de quem denunciava. Cabe, inclusive, indagar se, diante da gravidade das confissões de Naya, os vereadores mineiros não se tornariam cúmplices pelo silêncio que se impuseram. Ter conhecimento de um crime e omiti-lo à autoridade configura delito, segundo consta.
O Congresso tem pressa em livrar-se de Naya. Tornou-se um peso para a instituição. Se prevalecer a tradição, é improvável que seja preso. Possui excelentes advogados. Sua carreira pública, no entanto, está encerrada.
Seu chefe de gabinete na Câmara diz, indignado, que ele é um cidadão acima de qualquer suspeita. Está certo. Suspeita pressupõe dúvida - exatamente o que não há, em relação ao deputado-empreiteiro.





