O formato casado das eleições deste ano - isto é, envolvendo todos os escalões dos poderes estadual e federal - favorece o propósito reeletivo de Fernando Henrique.
Os governadores que pleiteiam mais um mandato - praticamente todos - não querem brigar com o presidente. Desejam, ao contrário, manter boas relações e pegar uma carona nos investimentos publicitários que deverão cercar a campanha do presidente.
Isso explica a escassa ressonância, dentro do PMDB, do apelo à dissidência liderado por seu presidente nacional, Paes de Andrade, e pelo senador Roberto Requião. Sem a adesão dos governadores, que detêm a influência que emana do cargo, nada feito. Não basta o verbo - é preciso verba. E esta está nas mãos dos governadores.
Não é casual que dois dos mais cotados presidenciáveis do PMDB, José Sarney e Itamar Franco, mantenham-se à margem das articulações promovidas por Paes. Recebem-no, tratam-no com simpatia, mas não se comprometem. Sabem que não há lastro político. Na hora de decidir, prevalece a força da estrutura partidária, que está nas mãos de quem governa. Os governadores do PMDB preferem apostar na continuidade - sua e do presidente da República.
Paes e o senador Roberto Requião não são políticos inexperientes ou ingênuos. Jogam o jogo que lhes é dado jogar. Conhecem as regras e não têm ilusão. Requião, com mandato até 2002, não tem nada a perder. Ao contrário, serve-se da exposição que o momento lhe oferece e credencia-se para jornadas futuras. Aumenta seu cacife político pessoal.
Tornou-se, em curto espaço de tempo, nome nacional. Até há pouco, estava restrito à política provinciana, onde se notabilizou por seu feitio polêmico, que o fez colecionar mandatos e inimigos. Hoje, sua imagem é a de oposicionista temido pelo governo e simpatizado pelo PT - circunstâncias ambas raras em se tratando de um peemedebista.
Paes também melhorou sua biografia, que estava injustamente vinculada ao prosaico episódio em que, como presidente interino da República, no governo Sarney, promoveu caravana triunfal de políticos e jornalistas a Mombaça, sua cidade natal, no interior do Ceará.
Já não se fala mais nele em termos caricatos. Seu passado de militante do MDB autêntico, ao tempo da ditadura militar, e de intelectual que escrevia discursos para Ulysses Guimarães - credenciais ofuscadas pelo affair Mombaça -, voltou a ser evocado.
Paes e Requião devem fazer grande barulho na convenção do PMDB. Evidenciarão que o partido não está unido e que há um sentimento de contrariedade nas bases. Mas não irão muito além disso. Ninguém quer aventuras em eleição casada. A reeleição de Fernando Henrique tem por trás vasta programação de obras, distribuída por todo o país.
Todos querem tirar sua casquinha, pegar uma carona no palanque presidencial. Paes e Requião não têm ilusões. Plantam a semente de um futuro partido, que venha ocupar o espaço de centro-esquerda, um dia ocupado pelo PMDB e pelo PSDB, e que o PT ainda não se mostrou apto a preencher.

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