O senador Roberto Requião, em conversa com esta coluna, esclarece que, quando governador do Paraná, jamais discriminou emendas orçamentárias de seus adversários. ‘‘Se algum adversário meu disser que vetei emendas, está certo, pois simplesmente as aboli’’.
O senador diz que não trabalhava com emendas e sim com programas de governo. Criou vários em sua gestão: Paraná Rural, Panela Cheia, Programa de Ovelhas, Eletrificação Rural etc. Os programas, segunda ele, tinham regras claras e estavam abertos a todas as prefeituras (na época, 376) da situação ou da oposição.
Todos participavam. Bastava atender às exigências técnicas. ‘‘Acho que esse jogo de emendinhas e barganhas é mesquinho - e burro. Mesquinho porque prejudica municípios e cidadãos, que nada têm com esse jogo político sórdido. E burro porque quem se submete a ele tem que pagar duas vezes ao governo: primeiro para ter sua emenda aprovada; segundo, para ter a verba liberada’’.
Requião diz que, jogando limpo, tirava bem mais proveito político que no jogo mesquinho das ‘‘emendinhas’’. Não discriminava seus adversários, mas faturava sua isenção política, o que é legítimo. ‘‘Fazia enorme alarde com a liberação de verbas para adversários. Dizia que, apesar do prefeito não ser meu aliado, estava sendo atendido na plenitude de seus direitos, pois o que importava para o meu governo era o bem-estar dos cidadãos, não as divergências dos políticos etc’’.
Num país de tantas distorções políticas, o que deveria ser o óbvio - isto é, a destinação equânime de verbas nos diversos planos da administração pública - acaba se tornando uma anomalia. Requião percebeu isso e, segundo ele próprio, optou por usar a esperteza política a favor do cidadão. A esperteza, em si, não é um mal - o mal está no objetivo a que serve, é a sua síntese.
Requião é contra as emendas individuais ao orçamento - e também contra as coletivas. Acha que o governo deve adotar programas horizontais e interativos, abertos e todos, sem discriminações.
Para que o esquema ‘‘sórdido’’ das ‘‘emendinhas’’ termine, acredita que é preciso bombardeá-lo implacavelmente. É isso o que pretendeu com sua denúncia em plenário, exibindo fita gravada de conversa de seu irmão, deputado Maurício Requião, com um assessor do ministro da Saúde.
As críticas que o senador recebeu, desde então, dividem-se em duas categorias: umas dizem que seu objetivo era atingir o governo, desprezando a daí em diante a gravidade do que denunciou; outras que não havia novidade, que essa prática é tradicional, o que a legitima.
‘‘A representação contra o governo está no STF e não há como negar o enquadramento pedido. Alegar que a prática é antiga não a torna legítima. Nesse caso, teríamos que abrir os presídios e libertar os que lá estão, pois os crimes que cometeram também não são novos’’.
Requião, como se vê, está afiadíssimo e com uma disposição de Carlos Lacerda.

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