As denúncias do senador Roberto Requião (PMDB-PR) de manipulação de verbas do orçamento e de clientelismo político por parte do governo federal dão o tom que deverá predominar na campanha sucessória de Fernando Henrique. A campanha, aliás, já começou.
Desde o escândalo da compra de votos para aprovação da emenda da reeleição, o governo Fernando Henrique perdeu sua aura de intocabilidade. Aquelas denúncias não deram em nada, do ponto de vista formal, mas impuseram feia cicatriz moral ao governo.
Desde ali, o governo passou a ser vulnerável a acusações dessa natureza, tal como os que o precederam. Até então, apesar de algumas ocorrências danosas, como as denúncias da pasta cor-de-rosa - aquela que o banqueiro Angelo Calmon de Sá guardava em seu cofre, com os nomes dos políticos que havia auxiliado nas eleições, com verbas do caixa dois -, o governo, em seu conjunto, beneficiava-se de boa reputação, que fazia com que a estratégia de denúncias caísse no vazio.
Havia, sobretudo em função do presidente Fernando Henrique, um diferencial ético em relação aos governos anteriores. O divisor de águas foi, sem dúvida, o episódio da compra de votos, que resultou na cassação dos que os venderam, mas não na dos que os compraram. O ministro das Comunicações, Sérgio Motta, foi citado por mais de um vendedor, mas por falta de provas, não foi incomodado.
O efeito político, no entanto, aí está. Hoje, acusação contra o governo não só pega como repercute. Requião, que sonha em candidatar-se à presidência da República - e é, até aqui, o único candidato de centro-esquerda capaz de atrair o PT -, é especialista na matéria.
Sua atuação na CPI dos Precatórios, coadjuvado pelo senador petista Eduardo Suplicy, foi uma espécie de trailler do que está por vir, no curso da campanha sucessória. No caso específico da presente denúncia, que envolve um assessor do Ministério da Saúde e o ministro da Articulação Política, Luís Carlos Santos, Requião e Suplicy voltam a atuar em dobradinha.
Ontem, Suplicy deu consequência prática às acusações de Requião, ao convocar, por meio de Requerimento, o ministro da Saúde, Carlos Albuquerque, e Luiz Carlos Santos. As acusações são graves, mas as provas até aqui exibidas não prometem muito.
O diálogo gravado em fita entre o irmão do senador, deputado Maurício Requião, e um assessor do ministro é bem menos contundente que o das fitas em que deputados confessavam haver vendido o voto em prol da emenda da reeleição. Se aquelas fitas, que mencionavam o valor da venda (R$ 200 mil) e citavam os nomes dos compradores (os governadores do Acre e do Amazonas e o ministro das Comunicações) não deram em nada, é improvável que a de Requião venha a dar.
O que importa, porém, do ponto de vista político, é que a fita evidencia a prática de clientelismo dentro do governo (o que não chega a ser propriamente uma novidade) e fornece munição acusatória contra o presidente-candidato. O objetivo, a rigor, é esse - e não necessariamente a elevação das práticas políticas do país.

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