Ruy Fabiano
Ninguém no PSDB paulista levou a sério a renúncia de meses atrás do governador Mário Covas à reeleição. Até prova em contrário, o governador continua visto e tratado como candidatíssimo. O seu gesto teve claro sentido de protesto contra a aproximação política entre Fernando Henrique e Paulo Maluf. Mas não apenas.
O governador estava mal nas pesquisas, sem chances aparentes contra Paulo Maluf. De quebra, a verba com que contava para reagir e deflagrar processo de inauguração de obras - cerca de R$ 800 milhões - foi suprimida pela Lei Kandir, que isentou do pagamento de ICMS as exportações e os bens de capital para modernização das empresas.
Com isso, novos atritos o indispuseram com o governo federal, sobretudo junto à área econômica. De lá para cá, Covas adotou comportamento ambíguo. Continua visitando suas bases e cumprindo agenda de candidato, mas, formalmente, insiste em que não é.
O enigma eleitoral que criou tornou-se o seu instrumento de pressão política. Como o PSDB paulista não dispõe, até aqui, de nenhuma alternativa eleitoral viável, trata de pressionar o governo federal para que reveja o tratamento dado a Covas e para que se distancie de Paulo Maluf. Concretamente, essa estratégia ainda não deu frutos.
A posição de Covas no ranking eleitoral não melhorou, enquanto a de Paulo Maluf parece estabilizada, com mais 40% das preferências (o que lhe garantiria vitória no primeiro turno). Diante desse quadro, o ex-governador Orestes Quércia, candidato do PMDB, animou-se.
Está tentando articular alianças à esquerda, que envolvam PT, PDT, e PSB. Não é missão fácil, na medida em que pressupõe levar à renúncia um candidato razoavelmente cotado, Francisco Rossi, do PDT. De qualquer forma, a ação de Quércia já produziu um resultado: preocupou o alto comando do PSDB e o próprio Fernando Henrique.
Quércia, além de adversário pessoal do presidente, está conectado às articulações de Paes de Andrade pela candidatura autônoma do PMDB à presidência da República. Pela causa, chegou a reconciliar-se com seu arquiinimigo Roberto Requião, que, na sucessão passada, trabalhou contra o seu nome, imputando-lhe numerosas denúncias de improbidade. Requião, naquela época, chegou a instalar um disque-denúncia contra o ex-governador, que não hesitava em chamar de ladrão.
Águas passadas. Hoje, ambos tornaram-se amigos de infância, confirmando o axioma segundo o qual em política não há amigo que não possa virar inimigo - e vice-versa. Requião tem boa penetração na esquerda. É o único nome de fora de seus quadros que o PT admite apoiar na sucessão de Fernando Henrique. Pode ser útil a Quércia na articulação de uma aliança de centro-esquerda em São Paulo contra Maluf.
A ausência de Covas favorece os planos de Quércia, o que indica que Fernando Henrique terá que romper com sua neutralidade majestática e se envolver concretamente no processo. O primeiro passo, claro, é recredenciar-se junto a seu amigo Covas.





